domingo, 7 de abril de 2013

“Fico em Santa Marta para não me isolar”, diz o Papa Francisco

O Papa Bergoglio confirmou a um amigo sacerdote que em dezembro visitará a Argentina e lhe explicou as razões pelas quais não mora nos aposentos do Papa e fica na Casa Santa Marta, a residência vaticana na qual se alojaram os 115 cardeais eleitores do Conclave e onde podem almoçar com os outros e compartilhar notícias e comentários.

A reportagem é de Andrea Tornielli e publicada no sítio Vatican Insider, 05-04-2013. A tradução é do Cepat.
O Papa Francisco, no domingo da Páscoa pela tarde, telefonou para Jorge Chichozola, pároco da Igreja dos Santos Mártires, em Posadas. “Me telefonou às 15h10 para me dar os parabéns pelo meu aniversário. Eu atendi porque imaginei que fosse ele porque, às vezes, também ligava um pouco antes para ter certeza de que a linha estaria desocupada, e me disse: Como estás?”, relatou Chichizola à Rádio LT4 Red Ciudadana, ao mesmo tempo em que garantiu que já havia conversado por telefone com Bergoglio horas antes de ser consagrado Papa, no mês passado.
O sacerdote argentino, companheiro de ordenação sacerdotal do novo Papa, disse que Francisco confirmou a viagem para a Argentina para dezembro, e teria acrescentado que continuará a “lembrar-se de seus amigos”.
Durante a conversa telefônica, acrescentou o sacerdote, o Papa lhe confirmou que permanecerá na residência Santa Marta do Vaticano e que não irá utilizar o apartamento pontifício. Francisco “considera que é bom compartilhar a mesa, as notícias, os comentários e não ficar isolado”, comentou. Quando lhe mostraram as instalações do apartamento papal, Francisco disse: “Isto é muito grande para mim”. “Também disse – conta Chichizola – que estava deixando os guarda-costas loucos, porque é de se aproximar das pessoas, mas que já estavam se acostumando”.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/519045-fico-em-santa-marta-para-nao-me-isolar-diz-o-papa-francisco

No princípio do Cristianismo eram os Leigos

No princípio do Cristianismo eram os Leigos. Jesus era leigo; os seus discípulos e discípulas eram leigos: pescadores, cobradores de impostos, domésticas… As primeiras testemunhas da Ressurreição foram os leigos e, antes dos Apóstolos, as mulheres. Os leigos foram a vanguarda da Igreja: estavam no mundo, aonde Jesus Cristo nos enviou a todos:«Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura» (Mc. 16,15). Os cristãos estavam em tudo quanto era sítio: na família, no trabalho, no exército…
Ainda não havia templos. Entre os mártires – as testemunhas pelo sangue e pela vida, dada por Cristo – eles constituíam o seu maior número, concretamente as mulheres: S.ª Felicidade, S.ª Perpétua, S.ª Inês, S.ª Cecília, S.ª Agata (Águeda)…
Quando acabou a perseguição, pelo édito de Milão (313), de Constantino,  não encontrando melhor meio de dar a vida por Cristo, foram eles – os Leigos – a retirar-se para o deserto (fuga mundi), para se consagrarem totalmente ao Senhor; assim começou o monaquismo  (=vida isolada), depois transformado em cenobismo (vida em comum), por influência de S. Basílio (no Oriente) e S. Martinho de Tours, S.º Agostinho e S. Bento (no Ocidente). Quando a Igreja precisava de Bispos para conduzir as Comunidades ia buscá-los ao deserto e ordenava-os, primeiro como sacerdotes e depois como Bispos… 

Depois veio o clericalismo: o predomínio do clero: fosse ele de ordem doutrinária (séculos XII-XIII), em que o Papa delegava nos príncipes o governo temporal dos povos; fosse ele de ordem social, que defendia que o maior grau de cultura do clero lhe dava direito a orientar os assuntos de ordem temporal; fosse ele de ordem eclesial, o que nós melhor conhecemos, que reserva(va) ao clero todas as iniciativas e responsabilidades pastorais… Foi a clericalização das ordens religiosas e da Igreja, que arrastou consigo a marginalização dos leigos, reduzidos a meros cumpridores…
E, assim, chegámos ao Concílio Vaticano II – designado o Concílio dos Leigos – que preconizou a autonomia da esfera temporal e a maioridade eclesial dos leigos, concretamente na Gaudium et Spes. Refira-se, de passagem, que a maioria dos 20 Concílios anteriores tiveram, como finalidade, a condenação de heresias e do mundo, ao contrário do Vaticano II que procurou olhar e ver o mundo,  como Jesus o olhava e via.
Mas, afinal, onde estão os Leigos? Que fizeram e fazem eles pela Igreja? Não é o seu lugar o mundo da profanidade: a família, a escola, o trabalho, a política?… Afinal, onde estão eles?  Na família é o que se vê, com o aumento dos divórcios e a negligência na passagem (=tradição) da fé aos filhos; na escola e nos Infantários, a mesma coisa; no trabalho, nem falar; na política, a desgraça total; nas Paróquias, quando muito, vemo-los no templo, de volta dos altares e dos Padres, como leitores, cantores ou Ministros extraordinários da Comunhão… Infelizmente, a maioria deles, mesmo aqueles que têm cursos superiores, a nível da fé, é analfabeta, tendo-se ficado pela catequese infantil de preparação para a Comunhão. Quem é que os vê, como catequistas de crianças, de adolescentes e jovens, ou ajudando nos Cursos de Preparação para o Matrimónio? As catequeses das nossas Paróquias continuam, na maioria dos casos, entregues a pessoas de boa vontade, mas sem formação capaz… Daí a debandada geral, após a recepção dos Sacramentos, à falta do testemunho de cristãos credíveis…
A Fé tem que ser inteligível, para ser credível: inteligível, antes de mais para quem crê; temos que terrazões para crer, senão não as temos para evangelizar: “Intellige ut credas” – dizia S.º Agostinho: procura compreender o que crês, para o creres mais convictamente e o testemunhares com mais credibilidade; S.º Inácio de Loiola diria: ‘procede, como se tudo dependesse de ti e nada de Deus! Mas, não podemos ficar por aqui; por isso, continua S.º Agostinho: “crede ut intelligas!” Mantém-te fiel, no seguimento de Cristo, ainda que não compreendas, de momento, o que crês, que a compreensão é filha da fidelidade; S.º Inácio diria: ‘procede como se tudo dependesse de Deus e nada de ti’!
Um dia, um jovem alemão disse-me que admirava os Jesuítas pela sua ligação ao mundo. De facto, S.º Inácio de Loiola viu-se e desejou-se para conseguir a libertação da vida conventual: nada de hábito religioso, pois não é o hábito que faz o monge; nada de Liturgia conventual das horas…Queria homens livres que pudessem ‘discorrer’ por todo o mundo. Não terá sido, por isso, que a Companhia de Jesus teve tanto sucesso, nos primeiros anos, sobretudo em Portugal, graças aos descobrimentos?
Onde estamos nós hoje? A primeira finalidade do Concílio foi levar a Igreja à descoberta da sua identidade: Igreja que dizes de ti? O que és? Para que existes? Qual a tua missão? Como estás a ser e a viver? Igreja, que tens a dizer ao mundo e como estás a dizê-lo? Como é que o mundo te vê? Que significas para ele? Como é que tu o ouves e ele te ouve? Muito pouco? Quase nada? Porquê?… Não continuarão a ser estas as questões centrais para a vida e missão da Igreja, hoje?
Porque será que o mundo não nos estima? Seremos verdadeiramente o que o Senhor nos mandou ser: fermento, sal e luz do mundo? Como o poderemos ser, se a nossa maior tentação – pelo menos nos últimos séculos – foi e é a fuga mundi, agora, não para o deserto, que era e é mundo, mas para o convento e a sacristia (o templo), que não existiam, no princípio?… «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele» (Jo. 3, 17). Se assim é – se o próprio Filho de Deus não teve medo do mundo, porque haveremos nós de o ter?
Pe. Domingos Monteiro da Costa, SJ

01.04.2013 
Fonte: http://essejota.net/index.php? =vnrhrlqqvkuivvqluprhrsqhutrhqqqkqruiqjrurvrrqsrnvvqnqlqrvrqjrurn

NÓS E O PADRE ANTHONY MUSAALA


Procurando evitar qualquer envolvimento emocional, gostaria de colaborar com umas poucas palavras acerca deste assunto que está mexendo com nossa comunidade de MFPC. Primeiramente, vai aqui o nosso abraço para Padre Musaala, na certeza do nosso sacerdócio comum nos unir sempre, fazendo de nós uma comunidade que deseja caminhar, como Abraão, rumo a terras novas, porque as antigas já foram, exaustivamente, lavradas, apresentando-se cansadas e, consequentemente, pouco produtivas.

Padre Musaala sugere “o início de uma reflexão interna sobre o ‘fracasso do celibato entre os padres diocesanos’ “. Gostaria de lembrar que esta mesma reflexão já foi sugerida ao Papa João Paulo II, através da intervenção direta de Aloísio Cardeal Lorscheider, quando da visita do Papa a Fortaleza em julho de 1980. A resposta foi um ensurdecedor silêncio! A resposta do Arcebispo de Kampala, Cyprian Kizito Lwanga, é mais clara: mais uma vez o Direito Canônico “resolveu” o problema, através da suspensão ferendae sententiae, como prescrito pelo cânon 1314.

Ou seja, desde 1980, isto é, em 33 anos, nada mudou, passo algum foi feito, a porta continua fechada e a “janela aberta” da Igreja em geral e do Vaticano em especial, com a qual Papa João XXIII tanto sonhava, não se realizou, tendo como consequência que, ao menos em relação a este assunto, “a primavera” ainda não chegou à Igreja, continuando ela mergulhada num grisalho e frio inverno, representado pelo Direito Canônico, que jamais deixará de ser um dos obstáculos principais para a Igreja tornar-se verdadeiramente Igreja de Cristo, comunidade de amor. 

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, como ele entende a palavra de Jesus quando diz: “Entre vocês não deve ser assim” (Jesus se refere à disputa, superioridade de uns sobre outros – onde há superiores, também há inferiores -) etc. ?

O senhor arcebispo alega que Padre Musaala “desperta o ódio e o desprezo contra a Igreja”. Creio que esta afirmação não necessite de comentário, pois fatos internos da Igreja Católica Apostólica Romana dos últimos anos falam por si, por terem causado profundo ódio e desprezo contra a Igreja, sem precedentes.Padre Musaala fala em “efeitos nada positivos em conseqüência de uma imposição”. O senhor arcebispo se nega a entrar no âmago da questão (a obrigatoriedade do celibato), refugiando-se no Direito Canônico, atitude típica de quem não tem argumentos. É fechada novamente a porta para o diálogo, a Igreja de Puebla, aquela da “Comunhão e Participação”, levando-a, mais uma vez, ao túmulo.

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, com que olhos ele lê o capítulo quarto do Evangelho de João, quando Jesus conversa, respeitosamente, com a mulher samaritana, interessando-se pela vida dela, procurando ajudá-la encontrar novas perspectivas para sua vida? Será que Jesus não quis ensinar-nos a arte do diálogo?

O Padre Musaala diz: “É necessária uma campanha de sensibilização pelo celibato opcional, já que não há argumentos teológicos, mas apenas as restrições de tradição e da disciplina da Igreja”.

Se somente no Brasil há, ao menos, 8.000 padres casados (não tenho idéia de quantos há pelo mundo afora), então a proposta por uma “sensibilização” acerca da questão obrigatória do celibato parece-me mais do que sadia, necessária, além de urgente. Creio, por sinal, que nós, o MFPC, deveríamos tomar a iniciativa deste processo de sensibilização.

Gostaria de perguntar ao senhor arcebispo de Kampala, e a todos que dirigem a Igreja, por que tanto medo, qual razão, por que tanta rigidez, frieza e insistência em não querer compreender o outro lado. Parece haver algo a esconder, algo de se envergonhar. Porque os senhores não abrem o jogo? Porque não vamos dar um “basta” a esta brincadeira de mau gosto deste interminável “esconde-esconde”? Paulo diz aos Efésios: “Confessando a verdade no amor, cresceremos sob todos os aspectos em direção àquele que é a cabeça, Cristo” (Ef. 4, 15).

 Entende-se esta palavra de Paulo no seguinte sentido: nós podemos fazer crescer as coisas em direção a Cristo. Ou seja: Cristo e sua verdade aparecerão se sentarmos à mesa para o diálogo e, depois, para a partilha do pão, juntos, que nem os discípulos de Emaús (Lucas 24, 30-32).

Embora ainda haja muitos outros aspectos a serem abordados, paro por aqui.

É evidente que o MFPC, em nível nacional, precisa declarar-se, publicamente, diante desta questão, começando por uma carta aberta ao Padre Musaala, deixando claro que ele é nosso irmão. Depois uma nota de protesto ao senhor arcebispo de Kampala, pedindo a ele para refletir sobre a palavra do Padre Musaala, quando este diz: “Casos (escandalosos) não são isolados, sintomáticos de um sistema doente que perdeu a sua integridade, mas que nunca vai admitir isso.”

Fonte: enviado pelo autor, via e-mail:  geraldof73@yahoo.com.br

06 de abril de 2013

Geraldo Frecken - PRESIDENTE ESTADUAL DO MOVIMENTO DOS PADRES CASADOS DO CEARÁ

  1 comentário para NÓS E O PADRE ANTHONY MUSAALA

 Jean Combe - Bélgica - PADRE CASADO


Eu penso que para responder aos questionamentos do Geraldo Frencken, é preciso, antes de mais nada, considerar esta igreja romana como uma instituição humana, o que ela, aliás, é.
E utilizar os instrumentos de análise de qualquer sociedade humana.
Qual é sua natureza? Quais são os elementos de sua identidade? Qual é sua composição? Como se se torna membro dela? Como se pode sair dela?
Quais são os elementos de autoridade?
Quais são seus meios de ação?
O que tem ela revelado de seu ser-no-mundo nos séculos passados?
O que ela trouxe de positivo à sociedade? E de negativo?
Qual é a percepção que dela têm as pessoas que não são seu público?
Quais são seus problemas hoje?
quais são as respostas que ela traz para estes problemas?
O que dizem dela os seus membros? O que dizem os seus detratores?
Longo trabalho. Mas eminentemente construtivo,  longe de tudo o que ela própria diz sobre si mesma. Boa caminhada.
Jean
 

UGANDA: suspenso padre que contesta o celibato. Porque: “CRIA ÓDIO contra a igreja.”


O celibato dos padres católicos é “mais uma imposição do que uma escolha livre, e seus efeitos não são nada positivos.” Isto foi escrito, preto no branco, pelo Pe. Anthony Musaala, sacerdote ugandês, numa longa carta aberta, enviada em 12 de março aos bispos, religiosos e leigos para sugerir o início de uma reflexão interna sobre o “fracasso do celibato entre os padres diocesanos”, “que poderiam se tornar felizes no casamento, antes ou depois da ordenação, em vez de viverem tristes e sozinhos.”
Uma opinião provavelmente chocante – especialmente para os católicos africanos que tendem a ser conservadores – mas inderrogável: continuar a fazer de conta que o problema não existe só vai causar danos sempre mais graves, continua Musaala, relativos tanto ao sofrimento dos sacerdotes como também às consequências “escandalosas” e criminosas. O ‘”auto-engano”, a negação do problema, explica o sacerdote, pode durar por mais uns dez anos, mas depois muitos escândalos virão à luz e, então, o sistema vai implodir, provocando o abandono da Igreja Católica e a migração de grande parte dos fiéis para outras comunidades de fé “, cujos pastores talvez nem sejam melhores, mas, com certeza, vão parecer menos hipócritas.” Tudo isso em um contexto eclesial de crescente descontentamento, sobretudo entre as classes médias.
Todos, na Uganda, falam sobre os casos amorosos dos sacerdotes, lemos na carta: no cabeleireiro ou no bar, na confissão ou em casa. Trata-se de relações mais ou menos ocultas que os sacerdotes mantêm, fugaz ou permanentemente com paroquianas, garçonetes, estudantes, padres, freiras, e até mesmo religiosos que oferecem sexo em troca de dinheiro.
E – é a nota triste – infelizmente mesmo com menores, sem que na África o escândalo da pedofilia suscite a indignação pública como aconteceu na Europa e na América do Norte. Completa o quadro uma ainda não contabilizada quantidade de filhos espalhados pelo país ou abortado por não “sujar’ a imagem do mesmo padre. “Emerge assim uma grande fraqueza humana – conclui Musaala – com consequências catastróficas tanto para o padre como para os parceiros. Fraqueza que não pode ser escondida atrás de um voto de celibato, orações e rituais. “
É “a verdade nua e crua” que a Igreja na África continua a empurrar, como se fosse poeira, para baixo do tapete, bem representada por alguns “casos” que o Pe. Anthony conta na carta: um rapaz de 21 anos que tentou o suicídio, filho de um padre que finge ser seu tio e que exerce o ministério na Arquidiocese de Kampala; um amigo dele, que nasceu da violência de um pai branco já falecido, que nunca conseguiu superar a injustiça sofrida pela mãe, apesar da compensação financeira da congregação; uma jovem de Kampala Velha, que caiu na miséria e depois foi enganada e engravidada por um padre; uma mulher que se ia confessar apenas para ser acariciada na escuridão do confessionário; finalmente, ele próprio que, muito jovem ainda, descobriu o concorrido mundo do sexo entre os estudantes das escolas católicas. “Casos não são isolados, sintomáticos de um sistema doente que perdeu a sua integridade, mas que nunca vai admitir isso.”
A proposta
Os casos de abuso infantil devem ser tratados com processos legais, da mesma forma que todos os outros crimes, escreve Musaala, lembrando que, entretanto – e, claro, em completa autonomia em relação à Igreja – decidiu criar uma rede de profissionais para apoiar vítimas de pedofilia eclesiástica.
“É necessária – acrescenta – uma campanha de sensibilização pelo celibato opcional”, “já que não há argumentos teológicos”, “mas apenas as restrições de tradição e da disciplina da Igreja”. “Estou ciente do fato de que a luta será dura. Infelizmente, o celibato também serve a alguns interesses na estrutura de poder da Igreja e, claro, para a autoridade eclesiástica, os padres celibatários são menos caros, mais fáceis de gerenciar e até mesmo de manipular.
Eu acho que com o tempo estaremos livres deste jugo inútil e mais grave ainda na África, onde os laços familiares são cruciais para o equilíbrio psicológico das pessoas. “Uma regra, conclui,  removendo uma pedrinha do sapato, que, além do mais, só vale para os padres que não têm poder suficiente para gozarem da cobertura complacente das hierarquias católicas locais.

A resposta
Segundo o arcebispo de Kampala, Cyprian Kizito Lwanga – o texto da sua resposta, datada de 19 de março, está disponível no site do jornal ugandês Daily Monitor, 20/3 – a carta do Pe. Anthony Musaala causou grande perturbação entre os fiéis e jogou uma luz ruim sobre a Igreja da Uganda, que sempre foi comprometida com a defesa dos direitos das crianças e dos mais vulneráveis. O celibato é uma obrigação prevista pelo código de direito canônico, mas também pelo juramento do diácono que fez os votos, acrescentou o prelado. Ninguém é forçado a se tornar padre e, portanto, as críticas feitas pelo Pe. Musaala estão incorretas. Além disso, o seu ensino, diz também o arcebispo, “desperta o ódio e o desprezo contra a Igreja”, e portanto “, ele incorre em uma suspensão ferendae sententiae, como prescrito pelo Can. 1314 ‘.
Giampaolo Petrucci
Tradução: João Tavares
Fonte:http://www.adistaonline.it/index.php?op=articolo&id=52656
 

sexta-feira, 5 de abril de 2013

A caminho para a Conferência Geral - 3

Tema e lugar da Conferência

 
05/04/2013: Casa Geral
Tanto o lema como o subtítulo foram propostos pelo Conselho geral e entregues ao Setor de Comunicações e Imagem Institucional da Província do Brasil Centro Sul, que elaborou um logo deles decorrente. Aqui vão alguns comentários:
A expressão  “DESPERTAREI A AURORA” aparece nos salmos 57(56), v.8-9  e 108(107), v. 2-3, quase com as mesma palavras:
Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme: cantarei e tocarei. Desperta, honra minha! Despertai cítara e harpa! Despertarei a aurora.
  A AURORA expressa a busca de novos horizontes, de um mundo novo que queremos construir.  DESPERTAR A AURORA coloca-nos numa postura ativa e dinâmica. O BRILHO DA AURORA faz referência ao subtítulo da Conferência: é um facho de luz que ilumina as representações das figuras humanas e dá um tom vibrante e otimista ao conjunto.
 
Normalmente, a aurora é a que desperta o poeta para que entoe cânticos em honra do Senhor; aqui é o poeta que se adianta à aurora, porque não pode conter o júbilo que o sufoca. É tempo de despertar, depressa, para expressar a passagem do medo à alegria, do pesadelo à serenidade, do clamor à ação de graças. E o salmista o faz com uns versos que brilham por sua intensidade e beleza. Ao despertar a aurora, tem que despertar-se a si mesmo, despertar toda a dignidade que havia ficado escondida pelo medo diante das ameças.
O GLOBO TERRESTRE traduz o conceito de internacionalidade (implica todo o mundo marista) e de unidade (encontro de representantes de todas as Províncias). As silhuetas dos CONTINENTES representam figuras humanas com um certo movimento: somos nós e nossas ações que construimos um mundo novo.
 
As imagens de CRIANÇAS E JOVENS indicam os destinatários da nossa missão marista e reforçam a perspectiva do encontro: há futuro porque há muita vida pela frente. O PROFETA, representado de maneira dinâmica e amistosa, converte-se em profeta da esperança: Seus braços abertos significam a acolhida, a inclusão; ao estarem em forma de cruz ressaltam a dimensão cristã. Tal é a MISSÃO MARISTA: olhando com os olhos das crianças abrimo-nos a um mundo novo e esperançoso.

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Palavra do Pastor

Estamos em pleno ANO DA FÉ, celebrando o Tempo Pascal após os intensos dias do Tríduo Pascal da Paixão, Morte, Sepultura e Ressurreição do Senhor. Assim estaremos em plena festa pascal por cinquenta dias como se fosse um só dia, até a Solenidade de Pentecostes.

O clima do Ano da Fé nos faz viver ainda com mais intensidade os fundamentos da vida cristã, Renovando desde sua raiz a nossa fé cristã.

Vêm-nos à mente o que já celebramos com júbilo na solene liturgia, as palavras de São Paulo que faz o anúncio lapidar do Mistério Pascal Redentor: “Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras… (1Cor 15, 3-4).

O aniversário e a comemoração dominical semanal da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo nos faz voltar às razões de nossa Fé! Por que sou cristão? Por que somos cristãos? Sem muitos rodeios, porque recebemos a extraordinária notícia, o Evangelho da Salvação: CRISTO MORREU PELOS NOSSOS PECADOS, FOI SEPULTADO E RESSUSCITOU AO TERCEIRO DIA PARA NOSSA JUSTIFICAÇÃO. Cremos neste testemunho dos que com Ele estiveram no drama terrível de sua morte ignominiosa – o Justo massacrado pelos pecados da multidão humana! E qual o sentido desta injustiça mostruosa?

Assim, desde o princípio a Palavra de Deus é que explica: “levando ele mesmo os nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas suas feridas fostes sarados. (1Pdr 2, 24), “porquanto derramou a sua alma até a morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu.” (Is 53,12)

Sim. Esta é a maior novidade: Cristo morreu pelos nossos pecados.

E a prova é que Ele ressuscitou para a nossa justificação: “o qual foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitado para a nossa justificação.” (Rom 4,25) E Ele torna justos pela sua misericórdia e poder os que nEle crêem e a Ele se entregam na Fé. Expressam esta Fé recebendo o Batismo – simples no gesto, de poder infinito em seu efeito. E a vida cristã iniciada se completa com o Dom do Espírito Santo (Crisma) e a plena Comunhão no Senhor (Eucaristia). A consequência da graça redentora recebida nos sinais sacramentais torna vida em cada pessoa e na convivência humana mostrando assim sinais da presença do Reino de Deus.

E Jesus continua agora vivo na Ressurreição: “assentou nos céus à direita do trono da Majestade” (Hbr 8, 1) “e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos.” (Mt 28,20).

Revivemos esta realidade de modo solene na liturgia pascal, e a testemunhamos pela nossa própria existência como Igreja que atravessa os séculos. Testemunha a presença vitória do Senhor a santidade de tantos irmãos e irmãs, que iluminam a humanidade através dos tempos; testemunhos antigos e atuais – santidade em perfeita humanidade.

Retornamos ao Anúncio Fundamental da Fé, o chamado Kerigma – o Evangelho presente e atuante no hoje de nossa história.

E o fruto mais saboroso do Ano da Fé será nova vitalidade da vida cristã, de comunhão eclesial, de missão evangelizadora – nova evangelização que apresenta a pessoa de Jesus Cristo – o Senhor Vivo – ao mundo de hoje. Por isso a nossa vida cristã será verdadeiramente convincente se coerente com a morte para o pecado e a vida no Amor de Deus. E todos poderão reconhecer que Jesus foi enviado pelo Pai, é nosso Salvador e dá seu Espírito que renova todas as coisas na face da terra.

+ José Antonio Aparecido Tosi Marques

Arcebispo Metropolitano de Fortaleza

“As mulheres primeiras testemunhas da Ressurreição”: Papa Francisco na audiência geral onde pediu aos jovens para serem portadores de esperança

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mulherescompapaO Papa Francisco recebeu hoje em Audiência Geral dezenas de milhares de peregrinos que enchiam a Praça de São Pedro por completo. Uma multidão que ouviu com atenção a Catequese do Santo Padre. Eis o resumo em língua portuguesa:

O Santo Padre retomou hoje as Catequeses do Ano da Fé. Tratou da Ressurreição de Jesus, centro da mensagem cristã dizendo que esta verdade de fé insere a nossa existência num horizonte de esperança aberto ao futuro de Deus, à felicidade plena, à certeza que o pecado e a morte podem ser vencidos.

“Mas é precisamente a Ressurreição que nos abre à esperança maior, porque abre a nossa vida e a vida do mundo ao futuro eterno de Deus, à felicidade plena, à certeza que o mal, o pecado, a morte podem ser vencidos. E isto leva a viver com mais confiança as realidades quotidianas, enfrentá-las com coragem e com empenho. A ressurreição de Cristo ilumina com uma luz nova estas realidades quotidianas. A resssureição de Cristo é a nossa força!”

E esta certeza que a fé nos dá permite que vivamos com mais confiança as realidades quotidianas, enfrentando-as com mais coragem e dedicação, na certeza de que Cristo é a nossa força. No Novo Testamento, Jesus Ressuscitado encontra-se com diversas testemunhas, primeiramente com um grupo de mulheres, em seguida com Pedro, depois com mais de quinhentas pessoas, até o encontro com Paulo, na estrada de Damasco.

Neste momento da audiência o Santo Padre aproveitou para saudar as mulheres presentes elogiando a sensiblidade feminina em assuntos de fé, desejando-lhes força sobretudo para a sua missão de mães:

“Antes de mais notemos que as primeiras testemunhas deste evento foram as mulheres. De manhã muito cedo, elas vão ao sepulcro para ungir o corpo de Jesus e encontram o primeiro sinal: o túmulo vazio. Segue-se depois o encontro com um Mensageiro de Deus que anuncia: Jesus de Nazaré, o Crucificado, não está aqui ressuscitou. As mulheres são levadas pelo amor e sabem acolher este anúncio com fé: acreditam e subitamente transmitem, não ficam com a mensagem para si. A alegria de saber que Jesus está vivo, a esperança que enche os corações, não a podem fechar dentro de si mesmas. Nos Evangelhos as mulheres têm um papel primeiro, fundamental. Aqui podemos colher um elemento a favor da historicidade da Ressurreição: se fosse um facto inventado, no contexto daquele tempo não teria estado ligado ao testemunho das mulheres. Os evangelistas narram simplesmente aquilo que aconteceu: são as mulheres as primeiras testemunhas. E isto é belo, é a missão das mulheres e das mães, darem testemunho aos seus filhos e netos que Jesus está vivo e ressuscitou”.

Continuou dizendo que também nós podemos reconhecer e encontrar o Ressuscitado: na Sagrada Escritura; na Eucaristia, onde Jesus faz-se presente a nos faz entrar em comunhão com Ele; na caridade, quando os gestos de amor, bondade, misericórdia e perdão fazem resplandecer um raio da Ressurreição no mundo.” No final da sua catequese aproveitou para saudar calorosamente os jovens presentes dizendo-lhes que devem ser eles os portadores da boa-nova da ressurreição:

“Vi que estão tantos jovens na Praça. Digo-vos que leveis esta certeza. O Senhor está vivo e presente na nossa via. Esta é a vossa missão. Levai esta esperança a todo o mundo. Força jovens.”

Finalmente o Papa Francisco saudou as várias delegações presentes. Eis a tradução da saudação aos peregrinos de língua portuguesa:

“Amados peregrinos de língua portuguesa, particularmente o grupo de brasileiros vindos do Paraná: alegrai-vos e exultai, porque o Senhor Jesus ressuscitou! Deixai-vos iluminar e transformar pela força da Ressurreição de Cristo, para que as vossas existências se convertam num testemunho da vida que é mais forte do que o pecado e a morte. Feliz Páscoa para todos!”

Por Rádio Vaticano

Renzo Rossi, Santo da Solidariedade

Frei Betto
Escritor e assessor de movimentos sociais
FONTE: Adital

Morre padre Renzo Rossi, defensor dos direitos humanos no Brasil
FONTE
Ensina a catequese que alguns cristãos lograram o impossível: viver segundo a vontade de Deus. Tiveram vida coerente, praticaram virtudes heroicas, deram testemunho do Evangelho como discípulos exemplares de Jesus. São chamados santos.
Com o tempo descobri que nem tudo que reluz é ouro. Há inúmeros santos anônimos que jamais serão canonizados, e há santos que merecem a glória dos altares e, no entanto, tiveram atitudes nada condizentes com os valores evangélicos.
Aliás, os processos de canonização custam caro, e são inacessíveis àqueles que viveram para os pobres, como Padre Cícero, Dom Helder Câmara, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Oscar Romero, para citar apenas alguns clérigos.
No dia 25 de março, perdemos um santo real, incontestável, de quem tive a graça de ser amigo: padre Renzo Rossi, italiano de Florença, jesuíta como o papa Francisco. No sábado, 23, eu deveria visitar Renzo no hospital. Como a Universidade de Florença cancelou minha palestra, deixei de abraçar o amigo de 87 anos que padecia de câncer no pâncreas.
Renzo era movido a uma alegria exuberante. Parecia dotado de mil baterias. De aparência jovial, nunca o vi triste nem mesmo carrancudo. Falava alto, tinha por hábito tocar seus interlocutores e tratá-los com irreverência. Nada parecia abatê-lo nem constrangê-lo.
Em 1965 ele veio integrar, no Brasil, a missão jesuíta de Salvador. Um ano após o golpe militar. Atuava junto aos pobres sem se envolver com a militância em luta contra a ditadura.
Em 1969 nós, frades dominicanos, fomos presos, acusados de subversão. Ao todo, sete frades. Um deles, Giorgio Callegari, era italiano de Veneza. No ano seguinte, ao retornar de férias à Itália, Renzo encontrou a mãe de frei Giorgio. Ela pediu-lhe que, ao retornar ao Brasil, fosse a São Paulo visitá-lo.
Padre Renzo veio ao Presídio Tiradentes, onde nos encontrávamos presos em companhia de quase 200 companheiros (Dilma Rousseff se encontrava na ala feminina). Frei Tito de Alencar Lima tinha sido reconduzido à tortura em fevereiro de 1970. Renzo ficou impressionado ao vê-lo. Decidiu que, dali em, diante, sua missão seria apoiar as vítimas da ditadura.
Ao longo de seis anos, Renzo visitou 14 cadeias brasileiras que abrigavam prisioneiros políticos. Como ele não tinha nenhum vínculo com política, e aparentava ser um cristão destituído de ideologia, não levantou suspeitas.
Renzo não era "neutro”. Estava ali para servir às vítimas, não aos algozes. Tanto que, por ocasião de uma greve de fome nacional, quando todas as comunicações entre presídios foram interrompidas, a repressão cometeu o equívoco de permitir que aquele sacerdote insuspeito visitasse os grevistas. Talvez pensasse que suas preleções poderiam demover os prisioneiros do "gesto suicida”. Mal sabia a ditadura que Renzo servia de pombo-correio entre os cárceres, passando informações e alento.
Em Salvador, foi preso um jovem de 18 anos: Theodomiro Romeiro dos Santos. Já no carro de polícia, sacou seu revólver e atingiu três agentes, matando um quarto, um sargento da Aeronáutica. Renzo passou a visitá-lo. Em 1971, Theodomiro foi condenado à pena de morte, mais tarde comutada em prisão perpétua. Veio a anistia, em 1979, e o jovem marcado para morrer não foi beneficiado.
Renzo temia, como todos nós, pela vida de Theodomiro, isolado em um cárcere e alvo do ódio da ditadura que, aos poucos, desmoronava. Era preciso libertar Theodomiro. Isso implicava subornar carcereiros e policiais.
Renzo voltou à Europa e levantou os recursos. Conseguiu tirar Theodomiro da prisão e do Brasil, conforme relato detalhado no inestimável livro de Emiliano José, "As asas invisíveis do padre Renzo”, que em breve chegará às telas de cinema.
Renzo se foi. Seu exemplo fica. Exemplo de algo que constitui a essência de nossa condição humana e, no entanto, nada fácil de ser praticado: a solidariedade. Jesus ensinou que isso, que é tão humano, é também, divino aos olhos de Deus. E quando se traduz em arriscar a própria vida para salvar outras vidas se chama amor.
[Frei Betto é escritor, autor de "Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org - twitter: @freibetto.
Copyright 2013 – FREI BETTO – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização do autor. Se desejar, faça uma assinatura de todos os artigos do escritor. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)].

Devolver a Liturgia ao Povo de Deus

José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília
Adital


No Domingo de Ramos passado fui entrevistado por quase uma hora por um programa de rádio de uma emissora do interior da Bahia e que é dedicado à questão da relação entre fé e exercício da cidadania. Nos estúdios da rádio, além do apresentador do programa, estavam pessoas da comunidade que me dirigiam comentários e perguntas. Numa das perguntas que me foram dirigidas o interlocutor me perguntava se o papa Francisco precisaria realizar alguma reforma no campo da Liturgia. Respondi-lhe positivamente sem pestanejar, afirmando que o novo papa terá que devolver a Liturgia ao povo.
E ao fazer tal afirmação eu tinha presente o desmonte que foi sendo realizado nas últimas décadas no campo da Liturgia, dentro da Igreja Católica Romana. Além do retorno ao ultraconservadorismo, com alfaias mofas e missas em latim, nas quais o padre literalmente dá as costas ao povo, tivemos a usurpação das celebrações por padres exibicionistas que, ao invés de conduzir a assembleia para Cristo, atraem as pessoas para eles mesmos. Fazem da Liturgia verdadeiros shows nos quais o povo permanece iludido, mudo, paralisado e tratado como uma massa de idiotas. Tudo isso contraria a disposição dada pela Constituição Sacrosanctum Concilium (SC), primeiro documento promulgado pelo Vaticano II, e segundo a qual a Liturgia é uma ação eclesial que pertence e é realizada por todo o Povo de Deus e não apenas por uma meia dúzia de pessoas (SC,14).
No parágrafo apenas citado, a Constituição litúrgica salienta que todos os fiéis têm o direito e o dever de participar de maneira ativa e consciente da celebração litúrgica. Tal direito e dever decorre da plena cidadania cristãde todos os batizados e de todas as batizadas, em razão da participação no sacerdócio de Cristo, que faz deles e delas raça escolhida, nação santa, povo eleito de Deus (1Pd 2,4-10). Por ser a Liturgia a primeira e necessária fonte da vida cristã – continua o documento conciliar sobre a Liturgia – os bispos e padres têm a obrigação de oferecer uma profunda formação litúrgica que permita a todos os batizados e a todas as batizadas participarem plenamente das celebrações litúrgicas. Mais adiante (SC, 28) a Constituição litúrgica esclarece que para que haja plena participação de todo o Povo de Deus nas celebrações é indispensável que aquele que as preside faça tão somente aquilo que lhe compete no exercício da presidência litúrgica. E não só isso. Cabe-lhe também o dever e a obrigação de, enquanto presidente, respeitar e fazer respeitar o específico de cada ministério e de cada serviço dentro da Liturgia, não lhe sendo permitido usurpar ou permitir que se usurpe aquilo que pertence a outros ministérios e serviços (SC, 29).
Nesta mesma perspectiva o documento conciliar pede que se promova a participação ativa de todas as pessoas que se fazem presente na celebração litúrgica, de modo que a Liturgia não termine sendo reduzida a um espetáculo, ao qual algumas pessoas assistem (SC, 30-31). Por esse motivo, salvaguardada a diversidade própria dos ministérios, "não haja nenhuma acepção de pessoas particulares ou de condições, quer nas cerimônias, quer nas solenidades externas” (SC, 32). Isso nos diz que, de acordo com a Constituição litúrgica do Vaticano II, não há mais lugar para expectadores dentro de uma celebração da Liturgia. Todos os que se fazem presentes têm o direito e o dever de participar, de modo que se pode concluir que a comunidade reunida em torno do altar é o único sujeito ativo da celebração. Numa liturgia não existem os que celebram e os que assistem, mas todos são celebrantes, embora cada um e cada uma participa da celebração a partir da função que brota da sua vocação específica e dos carismas e ministérios recebidos do Espírito (SC, 7).
Recentemente pude vivenciar toda essa riqueza proposta pela Constituição litúrgica do Vaticano II. Celebrei o Tríduo Pascal com um grupo de pessoas no Mosteiro da Anunciação do Senhor, em Goiás (GO), cidade goiana conhecida mundialmente por sua arquitetura colonial. Éramos um grupo pequeno de hóspedes do mosteiro e membros da comunidade local. Havia uma diversidade muito grande de pessoas que ia desde o cidadão simples e comum até professoras e professores de universidades. Cada celebração foi intensa e bem participada. Nenhum dos presentes se sentiu excluído e mero expectador. Ninguém usurpou a cidadania eclesial dos outros, mas todas e todos participaram intensamente de cada momento litúrgico, sempre a partir da sua vocação e missão na Igreja e na sociedade. Na sexta-feira santa não havia padre, mas nem por isso a Liturgia da Paixão deixou de ser feita e bem vivida. A missa da Ceia do Senhor e a Vigília Pascal foram presididas por um presbítero haitiano que fazia estágio na comunidade. Mas em nenhum momento o padre quis ser a estrela da celebração. Exerceu sua função de presidente da assembleia litúrgica com discrição, simplicidade e dignidade, sem tirar dos demais ministros e litúrgos o espaço que lhe era próprio. Por esse motivo as celebrações foram intensas, leves e profundamente revestidas de grande unção. Basta dizer que a celebração da Vigília Pascal teve início às três da manhã do domingo e se estendeu até as seis, quando concluímos este momento celebrativo com um delicioso "café acompanhado”, segundo a belíssima expressão da cultura local.
Precisamos, pois, retomar o espírito litúrgico do Vaticano II, uma vez que a Liturgia é a principal manifestação da Igreja local (SC, 41). Neste parágrafo o documento conciliar deixa bem claro que as celebrações litúrgicas são o retratoda diocese. Se nelas as pessoas são tratadas e agem como meros expectadores isso significa que nesta diocese não há Igreja de Cristo, mas apenas uma caricatura dela. De fato a palavra Igreja (do latim ecclesiae do grego ekklesía) literalmente significa a assembleia daqueles e daquelas que foram convocados e reunidos por Deus Pai, por meio do Filho e na força do Espírito. Nesta assembleia todas e todos são "pedras vivas” (1Pd 2,5), ou seja, membros ativos, participantes do mesmo e único sacerdócio de Cristo, cidadãos e cidadãs do Povo de Deus (1Pd 2,9-10).
Portanto, quando a Liturgia é manipulada e controlada por algumas pessoas; quando é propriedade particular de alguns, isso quer dizer que também a Igreja local não é Povo de Deus, mas apenas o curral onde "ladrões e salteadores” mantêm os batizados e as batizadas presos e escravizados (Jo 10,1-6). Se na Liturgia não há espaço para a diversidade, isso significa que na Igreja local não há espaço para a variedade de vocações, carismas, ministérios e serviços suscitados pelo Espírito (1Cor 12,4-13). É uma Igreja atrofiada, ou melhor, monstrenga, na qual alguns "carismáticos” usurpam o espaço dos demais membros (1Cor 12,14-21). E, lamentavelmente, há muitas dioceses completamente monstrengas por esse mundão afora. E para corrigir essa deficiência só há um caminho: fazer florescer a dimensão comunitária da Liturgia, devolver a Liturgia ao povo (SC, 42). Que o papa Francisco, em sua reforma, não se esqueça disso. Cuide para que as liturgias deixem de ser "ações privadas” e voltem a ser sacramentos de unidade do povo santo de Deus reunido mediante convocação da Trindade Santa (SC, 26).
[*Filósofo, teólogo, escritor, conferencista e professor universitário. Autor de Viver em Comunidade para a Missão. Um chamado à Vida Religiosa Consagrada, por Paulus Editora. Mais informações http://www.paulus.com.br/viver-em-comunidade-para-a-missao-um-chamado-a-vida-religiosa-consagrada_p_3083.html].

quinta-feira, 4 de abril de 2013

MARISTA NO CEARÁ

Colégio Marista de Aracati

Endereço:
Praça São Marcelino Champagnat, 1
CEP 62800-000 – Aracati – CE
Fone: (88) 3421-1482
Fax: (88) 3421-2715
http://marista.edu.br/aracati/

 

Faculdade Católica do Ceará

Endereço:
Av. Duque de Caxias, 101 – Centro – Fortaleza – CE
Fone: (85) 4009.6266
Fax: (85) 4009.6267
http://www.catolicaceara.edu.br/

Evangelho de Lucas: história, Jerusalém e salvação

Frei Gilvander Luís Moreira

Frei Carmelita; mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina

FONTE: Adital



Que visão o Evangelho de Lucas apresenta de história, Jerusalém e salvação?

Teologia da História em Lucas.

Analisando atentamente o terceiro evangelho da Bíblica e os Atos dos Apóstolos percebemos que há um plano global subjacente à obra lucana. Usando a linguagem de Conzelmann, que divide a história da libertação-salvação em três períodos(1), podemos dizer que o Primeiro Testamento narra o caminho de Israel, que é o tempo das promessas(2). O evangelho de Lucas narra o caminho de Jesus, que é o tempo da realização. Podemos deduzir isso pela ênfase que se dá ao "Hoje”: "Hoje se cumpre...”(3). E os Atos dos Apóstolos narra o caminho das Igrejas, que é o tempo do Espírito Santo.

Lucas elabora uma teologia da história que tem suas raízes no passado, chega ao auge em Jesus, continua nas Igrejas(4) pela ação do Espírito Santo e consuma-se na parusia. A manifestação de Jesus não é algo que acontecerá no fim dos tempos, como se ele permanecesse ausente; é antes a manifestação gloriosa de um Jesus que sempre esteve presente nas comunidades, como aparece no evangelho de Mateus (Mt 28,20). Com a ascensão, "Jesus não foi embora”, mas foi exaltado, glorificado, legitimado. Jesus "vai, mas não vai”; ausente no aspecto físico, continua presente por meio do Espírito Santo. O corpo das pessoas que aderem ao seu projeto passa a ser o "corpo de Cristo”, movido pelo Espírito de Jesus(5). Para Lucas, Deus agiu na história da primeira comunidade cristã da mesma forma como agiu em Jesus. Este era enviado de Deus e os cristãos também o são. Por consequência, concluímos que todos somos convidados a "encarnar a realidade” de que também somos enviados de Deus para a libertação de todos e de tudo. Ignacio Ellacuría dizia que dom Oscar Romero foi (e continua sendo, mesmo depois da morte, como ressuscitado) um enviado de Deus para libertar o seu povo. Oscar Romero dizia aos cristãos perseguidos pela ditadura militar em El Salvador: "Vocês são Jesus Cristo, aqui e agora. Vocês são enviados de Deus para salvar e libertar o nosso povo”.

A parusia começou na encarnação, vida e ressurreição de Jesus e será completada quando ele terminar de voltar e não quando começar a voltar.

Jerusalém em Lucas.

O evangelho de Lucas é o único dos quatro evangelhos da Bíblia que começa e termina em Jerusalém, precisamente no templo. Imediatamente depois do prólogo geral à obra lucana (Lc 1,1-4), a primeira cena se desenvolve "no santuário do Senhor” (Lc 1,5-23). Depois da ressurreição, os onze voltam para o templo em Jerusalém (Lc 24,53). Os pais de Jesus o levam duas vezes ao templo (Lc 2,22.42). O episódio de Jesus aos doze anos conversando com os doutores no templo é prefiguração do ensinamento futuro de Jesus no templo (Lc 19,47).

Lucas apresenta as três tentações em uma ordem diferente do evangelho de Mateus. Este inicia apresentando a tentação da transformação de pedras em pão (primeira tentação), do jogar-se do pináculo do templo e ser salvo pelos anjos (segunda tentação) e a tentação de contemplar em uma alta montanha os reinos com todo o esplendor (terceira tentação) (Mt 4,1-11 e Lc 4,1-13). Para Mateus é importante colocar a última tentação no cume de uma montanha, pois o evangelho está sendo dirigido a comunidades oriundas principalmente do meio judaico, onde "montanha” é, por excelência, o local do encontro do ser humano com Deus e consigo mesmo. Assim, Mateus enfatiza Jesus, em profunda intimidade com o Pai, na montanha, superando as tentações.

No evangelho de Lucas, a primeira tentação se dá no deserto, onde Jesus é tentado a transformar pedra em pão. A segunda acontece na montanha, em que contempla os reinos. A terceira acontece no pináculo do templo, onde Jesus é tentado a saltar dali para ser salvo pelos anjos. Há uma progressão nas tentações. O clímax do confronto entre Satanás e Jesus aconteceu precisamente em Jerusalém, onde acontecerá a execução do Justo com a pena de morte, a pena capital. Assim, a cena na qual Jesus se encontra sobre o pináculo da "casa de seu Pai” se torna muito eloquente, porque no evangelho de Lucas, "Jerusalém” é o ponto de chegada de Jesus para realizar a obra (Lc 17,11; Lc 19,28-38). Para as primeiras comunidades cristãs, "Jerusalém” é o ponto de partida para a missão (Lc 24,52). Jerusalém tem uma importância particular, pois é a cidade do "destino” final de Jesus e de onde se irradia a libertação-salvação para todo o gênero humano. Jesus caminha para Jerusalém como se buscasse alcançar uma meta (Lc 13,22). Lucas valoriza "Jerusalém” não somente como lugar físico, mas primordialmente como lugar teológico que representa a "cidade de Davi”(6), o monte Sião, de onde Deus legisla. Lucas se refere a "Jerusalém” com o termo grego Ierousalëm, designação de Jerusalém não como lugar geográfico, mas de lugar sagrado do judaísmo.

Salvação em Lucas.

A salvação acontece com base nas entranhas da história da humanidade. Deus, pela encarnação que culmina em Jesus de Nazaré, assume as entranhas humanas para salvar todos e tudo. Infelizmente já faz parte do senso comum que salvação se refere apenas à "alma”. Perdeu-se a relação do corpo com a salvação. Diante disso é bom recordar que a palavra "salvação”, no seu sentido original, quer dizer livrar o ser humano de algum mal físico, moral ou político, ou de algum cataclismo cósmico; isso supõe resgate da integridade. Com referência ao acontecimento Cristo, resgatar a integridade do ser humano significa restabelecer sua relação inata com Deus, com os outros, com toda a criação e consigo mesmo. Não podemos esquecer que o credo cristão afirma a convicção na ressurreição da "carne”, não apenas da "alma”.

Salvação é um dos efeitos mais importantes do acontecimento Cristo, pelo menos na mentalidade de Lucas, no evangelho e em Atos dos Apóstolos. Ele é o único dos evangelistas sinóticos a chamar Jesus de "Salvador”(7). O melhor resumo que mostra o que é salvação é: "O filho do Homem veio buscar o que estava perdido e salvá-lo” (Lc 19,10).

Não podemos continuar pensando, segundo o senso comum, que salvação se refere somente a algo pós-morte e que não tem nada a ver com libertações na história. Na Bíblia, as categorias salvação e libertação são "equivalentes” e complementares, mesmo que alguns textos possam enfatizar mais a ideia de salvação, e outros, mais a ideia de libertação. Por exemplo, etimologicamente o nome Josué significa "o Senhor é libertação-salvação” (Nm 11,28); Josué é a versão hebraica do nome de Jesus. Este é versão aramaica. Logo, etimologicamente, Jesus é o novo Josué, aquele que liberta e salva, em um processo interdependente. Josué conduziu o povo na conquista da terra prometida. Jesus conduz o povo para a construção do Reino de Deus no mundo. Outro exemplo: o nome Oséias significa libertação-salvação (Nm 13,8). O profeta Oséias combateu com veemência a idolatria, libertando e salvando o povo.

Libertação-salvação faz parte do campo semântico dos verbos libertar, salvar, sarar, curar, resgatar, perdoar, reerguer, redimir, integrar, recuperar, incluir, apoiar e outros similares. Isso indica a inter-relação existente entre libertar e salvar: são duas faces da mesma medalha; inseparáveis como carne e unha. "Salvação” que não implica libertação real, concreta e corporal das pessoas é pseudossalvação.

Lucas não quer, em momento algum, espiritualizar a proposta do Evangelho de Jesus Cristo, mas inseri-la nos processos orgânicos de libertação. A salvação que Lucas defende não é aparente, como diz o povo: "Peruca em cabeça de careca”.

Belo Horizonte, MG, Brasil, 01 de abril de 2013.

Notas:

(1) Conzelmann sugere três períodos para a história da salvação:
- O tempo de Israel compreende o Primeiro Testamento, da criação do mundo até João Batista, inclusive (Lc 1,5–3,1) – (tempo do Pai).
- O tempo de Jesus compreende o Segundo Testamento, do início do ministério público de Jesus de Nazaré até a sua ascensão (Lc 3,2–24,51) – (tempo do Filho).
- O tempo da(s) Igreja(s), sob a perseguição, vai da ascensão até a parusia (Lc 24,52-53; At 1,3–28,31) (tempo do Espírito Santo).
Três passagens em Lc fundamentam esta divisão:
- Em Lc 16,16 aparece uma divisão em dois períodos: a lei e os profetas, até João. Daí em diante é anunciada a Boa-Nova do Reino de Deus, com a indicação do tempo de Jesus (cf. Lc 4,21).
- Em Lc 22,35-37 Jesus adverte aos doze para a hora em que terão de procurar bolsas, alforjes, mantos e espadas. No "tempo de Jesus” não havia necessidade de todas essas provisões, mas no "tempo da(s) Igreja(s) perseguidas (ecclesia pressa) a situação é muito diferente, profundamente conflitiva: repreensão, opressão e repressão eram "pão de cada dia” experimentado pelas comunidades cristãs (At 8,1b.4; 11,19).
- Em Lc 4,21 com o "hoje se cumpre...”.
(2) Cf. Lc 1,16.54.68.80; 2,25.32.34; 4,25.27; 7,9; 22,30; 24,21.
(3) Cf. Lc 2,11; 4,21; 5,26; 12,28; 13,32.33; 19,5.9.42; 22,34.61; 23,43.
(4) Colocamos Igreja no plural também para recordar que nasceram, organizaram-se e cresceram diversas Igrejas — Jerusalém, Samaria, Antioquia, Roma, Corinto, Tessalônica, Filipos, Éfeso, de Pérgamo, Filadélfia, Gálatas, Colossos, de Tiatira, Esmirna, Sardes, Laodicéia etc. Logo, não podemos pensar em uma única Igreja cristã primitiva, mas em uma grande diversidade de Igrejas cristãs primitivas que formavam uma grande unidade com base na grande diversidade entre elas.
(5) Cf. At 1,2.5.8.16; 2,4.17.18; 2,33.38; 4,8.25.31; 5,3.9.32; 6,6.5.10; 7,51.55; 8,15.17.18.19.29.39; 9,17.31; 10,19.38.44.45.47; 11,12.15.16.24.28; 13,2.4.9.52; 15,8.28; 16,6.7; 19,2.6; 20,23.28; 21,4.11; 28,25.
(6) Davi é recordado como um dos três reis bons, principalmente pela sua primeira fase. Ele uniu e organizou marginalizados e excluídos da sociedade e implementou um governo popular e democrático. A expressão "cidade de Davi” quer recordar o Davi da primeira fase, não o Davi corrompido pelo poder, no final do seu reinado.
(7) Em grego, sõtër, cf. Lc 2,11. Em Atos dos Apóstolos Lucas se refere a Jesus como Salvador mais duas vezes: At 5,31; 13,23.

UGANDA: suspenso padre que contesta o celibato. Porque: “CRIA ÓDIO contra a igreja.”

O celibato dos padres católicos é “mais uma imposição do que uma escolha livre, e seus efeitos não são nada positivos.” Isto foi escrito, preto no branco, pelo Pe. Anthony Musaala, sacerdote ugandês, numa longa carta aberta, enviada em 12 de março aos bispos, religiosos e leigos para sugerir o início de uma reflexão interna sobre o “fracasso do celibato entre os padres diocesanos”, “que poderiam se tornar felizes no casamento, antes ou depois da ordenação, em vez de viverem tristes e sozinhos.”
Uma opinião provavelmente chocante – especialmente para os católicos africanos que tendem a ser conservadores – mas inderrogável: continuar a fazer de conta que o problema não existe só vai causar danos sempre mais graves, continua Musaala, relativos tanto ao sofrimento dos sacerdotes como também às consequências “escandalosas” e criminosas. O ‘”auto-engano”, a negação do problema, explica o sacerdote, pode durar por mais uns dez anos, mas depois muitos escândalos virão à luz e, então, o sistema vai implodir, provocando o abandono da Igreja Católica e a migração de grande parte dos fiéis para outras comunidades de fé “, cujos pastores talvez nem sejam melhores, mas, com certeza, vão parecer menos hipócritas.” Tudo isso em um contexto eclesial de crescente descontentamento, sobretudo entre as classes médias.
Todos, na Uganda, falam sobre os casos amorosos dos sacerdotes, lemos na carta: no cabeleireiro ou no bar, na confissão ou em casa. Trata-se de relações mais ou menos ocultas que os sacerdotes mantêm, fugaz ou permanentemente com paroquianas, garçonetes, estudantes, padres, freiras, e até mesmo religiosos que oferecem sexo em troca de dinheiro.
E – é a nota triste – infelizmente mesmo com menores, sem que na África o escândalo da pedofilia suscite a indignação pública como aconteceu na Europa e na América do Norte. Completa o quadro uma ainda não contabilizada quantidade de filhos espalhados pelo país ou abortado por não “sujar’ a imagem do mesmo padre. “Emerge assim uma grande fraqueza humana – conclui Musaala – com consequências catastróficas tanto para o padre como para os parceiros. Fraqueza que não pode ser escondida atrás de um voto de celibato, orações e rituais. “
É “a verdade nua e crua” que a Igreja na África continua a empurrar, como se fosse poeira, para baixo do tapete, bem representada por alguns “casos” que o Pe. Anthony conta na carta: um rapaz de 21 anos que tentou o suicídio, filho de um padre que finge ser seu tio e que exerce o ministério na Arquidiocese de Kampala; um amigo dele, que nasceu da violência de um pai branco já falecido, que nunca conseguiu superar a injustiça sofrida pela mãe, apesar da compensação financeira da congregação; uma jovem de Kampala Velha, que caiu na miséria e depois foi enganada e engravidada por um padre; uma mulher que se ia confessar apenas para ser acariciada na escuridão do confessionário; finalmente, ele próprio que, muito jovem ainda, descobriu o concorrido mundo do sexo entre os estudantes das escolas católicas. “Casos não são isolados, sintomáticos de um sistema doente que perdeu a sua integridade, mas que nunca vai admitir isso.”

A proposta

Os casos de abuso infantil devem ser tratados com processos legais, da mesma forma que todos os outros crimes, escreve Musaala, lembrando que, entretanto – e, claro, em completa autonomia em relação à Igreja – decidiu criar uma rede de profissionais para apoiar vítimas de pedofilia eclesiástica.
“É necessária – acrescenta – uma campanha de sensibilização pelo celibato opcional”, “já que não há argumentos teológicos”, “mas apenas as restrições de tradição e da disciplina da Igreja”. “Estou ciente do fato de que a luta será dura. Infelizmente, o celibato também serve a alguns interesses na estrutura de poder da Igreja e, claro, para a autoridade eclesiástica, os padres celibatários são menos caros, mais fáceis de gerenciar e até mesmo de manipular.
Eu acho que com o tempo estaremos livres deste jugo inútil e mais grave ainda na África, onde os laços familiares são cruciais para o equilíbrio psicológico das pessoas. “Uma regra, conclui,  removendo uma pedrinha do sapato, que, além do mais, só vale para os padres que não têm poder suficiente para gozarem da cobertura complacente das hierarquias católicas locais.
A resposta
 
Segundo o arcebispo de Kampala, Cyprian Kizito Lwanga – o texto da sua resposta, datada de 19 de março, está disponível no site do jornal ugandês Daily Monitor, 20/3 – a carta do Pe. Anthony Musaala causou grande perturbação entre os fiéis e jogou uma luz ruim sobre a Igreja da Uganda, que sempre foi comprometida com a defesa dos direitos das crianças e dos mais vulneráveis. O celibato é uma obrigação prevista pelo código de direito canônico, mas também pelo juramento do diácono que fez os votos, acrescentou o prelado. Ninguém é forçado a se tornar padre e, portanto, as críticas feitas pelo Pe. Musaala estão incorretas. Além disso, o seu ensino, diz também o arcebispo, “desperta o ódio e o desprezo contra a Igreja”, e portanto “, ele incorre em uma suspensão ferendae sententiae, como prescrito pelo Can. 1314 ‘.
Giampaolo Petrucci
Tradução: João Tavares

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Profissão Perpétua do Irmão Justin Golding

Em um dos mais importantes eventos da nova Província da Austrália, a Capela da Anunciação do St. Gregory’s College, Campbelltown, ficou lotada no dia 2 de março, sábado, quando os membros da Comunidade Marista da Austrália se reuniu para testemunhar e celebrar com alegria a profissão perpétua do Irmão Justin Golding, FMS.
Na presença de familiares, Irmãos e amigos, Ir. Justin fez seus votos perpétuos de pobreza castidade e obediência ao Ir. Jeffrey Crowe, FMS, Provincial da Austrália e delegado do Superior Geral. A profissão de votos ocorreu durante da Eucaristia, presidida pelo Pe. Gary Perritt, CP, e concelebrada pelo Padre Brian Mascord (da Diocese de Maitland) e Padre Paul McDonald (da Diocese de Lismore). E para prestigiar o evento compareceu também grande contingente da comunidade escolar, alunos e ex-alunos do Trinity Catholic College de Lismore, onde Ir. Justin é professor há cinco anos.
Depois de professar os votos e receber seu crucifixo Marista, Justin falou para os presentes sobre a influência positiva dos Irmãos quando ele era aluno do St. Gregory’s College: “Foi uma feliz jornada a que me trouxe aqui hoje. Uma jornada em que encontrei numerosos Irmãos que me inspiraram e me encorajaram a assumir a vida deles como minha”.
 
Irmão Jeffrey aproveitou a oportunidade para recordar o significado da vocação de um Irmãos Religioso na vida da Igreja e da Comunidade Marista: “A palavra ‘Irmão’ é preciosa para nós e nossa identidade. Ela descreve não apenas os relacionamentos entre os Irmãos dentro das comunidades religiosas, mas com as pessoas em geral, especialmente com os jovens, o centro de nossa missão”.
 
Ao contrário da crença popular sobre a Vida Religiosa, que seria uma escolha contracultural, Justin partilhou uma perspectiva alternativa através das lentes da fé: “Se você puder ver com os meus olhos, parecerá uma escolha muito comum e normal de se fazer... não é absolutamente contracultural. Deus falou comigo e tocou meu coração. Como não responder com o dom da minha vida? Como lhes disse antes, não consigo imaginar viver a minha vida de nenhuma outra maneira”.
Após agradecer sua família pelo apoio permanente, Justin aproveitou a ocasião para expressar sua gratidão a todas as pessoas da Comunidade Marista da Austrália que estiveram presentes: “Este é um tempo maravilhoso em nossa história e estou muito tão feliz de participar de tudo o que está por vir. Fui profundamente inspirado por todos vocês que não são Irmãos, mas que foram atraídos por nosso carisma e desejam viver no mundo. Obrigado pelo testemunho que vocês representam para aqueles a quem servimos.”
No final da Eucaristia, Ir. Jeffrey afiliou os pais de Justin, Ken e Jenny Golding, à Província dos Irmãos Maristas da Austrália como sinal de estreitamento dos laços da família Marista.
Saudamos e agradecemos o Ir. Justin pelo generoso dom de sua vida dizendo “Sim” como Irmão Marista e desejamos a ele todas as bênçãos para continuar a tornar Jesus Cristo conhecido e amado pelos jovens, do jeito de Maria e de São Marcelino.

Comissão Internacional do MChFM se encontra em Guadalajara

O supervisor do Laicato da Rede Marista RS/DF, Edison de Oliveira, está na Universidade Marista de Guadalajara/México, participando de mais um encontro da Comissão Internacional do processo de revitalização do Movimento Champagnat da Família Marista (MChFM).

A Comissão está reunida, de 18 a 22/3, para construir uma síntese sobre a caminhada do MChFM no mundo. Também está fazendo um levantamento de países em que o movimento não se faz presente, verificando que outros projetos laicais existem nestes lugares.


Integrantes da Comissão Internacional do
processo de revitalização do
MChFM

Sobre a Comissão Internacional do processo de revitalização do MChFM       
A Comissão foi instituída em 2012, é composta pelo Ir. Javier (Coordenador do Secretariado dos Leigos no Instituto Marista), Ir. Adalberto (Província Marista Brasil Centro-Norte) e representantes Leigos do México, Espanha, Brasil e Canadá.
Os objetivos dos encontros da Comissão são:
  • buscar uma aproximação maior entre os membros da Comissão, no sentido de todos se sentirem parte uma grande Família, a Família Marista;
  • aprofundar o conhecimento sobre as diferentes realidades do MChFM, a partir das sínteses recebidas;
  • buscar um esclarecimento maior sobre o sentido da revitalização do Movimento;
  • construir um desenho global das próximas etapas do processo de revitalização.

PARA QUE A PÁSCOA NÃO TENHA FIM


Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
FONTE: Adital


Clínicas de beleza oferecem tratamento de rejuvenescimento. Academias proporcionam malhações e fisioterapias que prometem milagres físicos. Grupos espiritualistas fazem terapias de renascimento. Todos desejam renovar a si mesmos e às pessoas que amam. A tradição bíblica oferece às comunidades judaicas e cristãs a mística pascal como instrumento para uma renovação que atinge a pessoa e todo o universo.
Em tempos muito antigos, a Páscoa era uma dança da primavera e que fazia as pessoas participarem da renovação da natureza no hemisfério norte. Mas mesmo no sertão do Nordeste do Brasil, essa é a época das tão esperadas chuvas e é costume cantar na Páscoa um hino que vem de séculos antigos: "Cristo ressuscitou, o sertão se abriu em flor, da pedra, água surgiu, era noite e o sol raiou, aleluia!”. Essa esperança é o que as Igrejas cristãs celebram nessa semana pascal e ainda por 50 dias como se teimassem em transformar o cotidiano da luta em uma energia de festa permanente.
Na noite do sábado passado ou madrugada do domingo, na grande Vigília pascal, mais importante celebração da Igreja durante todo o ano, as comunidades escutavam um evangelho que narra a corrida das mulheres, amigas de Jesus ao seu túmulo, "na madrugada, quando o sol ainda não havia nascido” (Cf. Lc 24, 1). Essa é a melhor imagem da Páscoa: uma madrugada ainda escura na qual temos certeza de um amanhecer esplendoroso e brilhante. Aurora de um mundo novo, presente do amor divino ao universo que se realiza em nós e toma a forma de uma organização social mais justa e fraterna. Nesses dias, em Túnis, na Tunísia, homens e mulheres, cidadãos de vários países e ligados às mais diversas tradições religiosas ou a nenhuma encerraram mais um fórum social mundial no qual tomaram como bandeira comum: "um novo mundo é possível!”. Essa palavra é a tradução civil e laical correspondente ao que os cristãos proclamam em sua fé: O Cristo ressuscitou realmente e assim Deus inaugurou uma nova criação da qual nós fazemos parte e somos chamados a ser testemunhas.
Quando olhamos a realidade do mundo, constatamos a urgência de que o escuro da madrugada se transforme em luz do dia. Ansiamos por uma economia mais justa e transparente. Em nosso país, queremos uma organização social e política mais participativa. E precisamos de um novo modo de nos relacionar com a natureza. A aurora do dia tem seus mistérios. Se vai raiar um dia de sol ou a manhã será chuvosa e feia, não depende de nós. A aurora social e humana, sim. Podemos ajudar a que a madrugada ainda escura de nossa realidade se transforme em dia ensolarado da justiça e da fraternidade. Isso é Páscoa. Fazemos isso ao participarmos de todo esforço social por um mundo mais justo, mas também no nosso dia a dia ao tornarmos mais amorosas nossas relações com as pessoas. No Oriente, nesses dias, os cristãos recordam a memória de um santo monge que foi uma espécie de Francisco de Assis russo. Viveu no século XIX e se chamava Serafim de Sarov. Vivia em uma floresta e cada vez que em seu caminho encontrava alguém, se curvava diante do desconhecido e dizia: "Ao ver você, constato que verdadeiramente Jesus ressuscitou e atua em você fazendo de você uma pessoa nova. Graças a Deus!”.