Dom Walmor Oliveira de Azevedo Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
Caminhar com a juventude é compromisso que deve ser assumido por todos, como inestimável bem para a sociedade e a Igreja. A caminhada dos jovens, especial momento na programação da Semana Missionária na Arquidiocese de Belo Horizonte, ocorrerá neste sábado, 20 de julho, com concentração a partir das 14 horas, na Praça do Papa, em Belo Horizonte. Às 16 horas, os participantes seguirão pela Avenida Afonso Pena até a Praça da Estação. A presença dos jovens, acompanhados e apoiados por familiares e amigos, particularmente por todos os que se movem pela fé em Jesus Cristo, se constituirá num evento significativo para a sociedade.
Essa manifestação com os jovens, grandes protagonistas desta nova etapa que exige um novo tempo para a sociedade brasileira, será a oportunidade de qualificar o atual, complexo e exigente processo de transformação social com os valores do Evangelho de Jesus Cristo. O tratamento político indispensável ao contexto requer esse aprimoramento para superar superficialidades partidárias e galgar níveis de comprovado sentido de bem comum. Muitas referências e instâncias, outrora com força de colaborar com incidências em processos dessa natureza, estão enfraquecidas. As razões de seu enfraquecimento incluem desde a falta de maior sensibilidade social até práticas perigosas de favorecimentos ou de dominação cartorial, especialmente daquilo que deveria funcionar em benefício de todos.
O caminho para as mudanças encontra-se em Jesus Cristo e no seu Evangelho, garantia incontestável da necessária qualificação para se alcançar o desejo das novas gerações, resumido no tema da caminhada do próximo sábado: “A juventude quer viver”. Para se alcançar esse anseio, demandam-se transformações muito significativas, até radicais, em funcionamentos e procedimentos que configuram a sociedade. A Semana Missionária, o Congresso Mundial de Universidades Católicas e o ápice desses acontecimentos, a Jornada Mundial da Juventude, são preciosas oportunidades para uma verdadeira transformação.
Entre nós já estão muitos jovens procedentes de diversas partes do mundo. Na Jornada Mundial da Juventude o coração destes peregrinos vai bater forte ao redor do Papa Francisco. Essas experiências de fé e comunhão precisam fazer a diferença, remodelando mentes, contextos e dinâmicas da sociedade. O fascínio por uma pessoa, Jesus Cristo, é a razão maior, iluminadora de todas as outras, rumo novo à pauta extensa de demandas pela construção de um mundo mais justo e solidário, em que homens e mulheres sejam construtores da paz.
Já no próximo sábado, durante a caminhada “A juventude quer viver” é importante a presença corajosa de cada um, de todos aqueles que apostam nos jovens e com eles buscam um novo tempo. O gesto de caminhar, com o jeito jovem de ser e de se manifestar, pacificamente, seguindo os passos do Senhor da paz, é pública adesão e comprometimento no enfrentamento de problemas gravíssimos que estão desfigurando a sociedade. Nessa extensa pauta, não se pode fechar os olhos à dependência química, “mancha que invade tudo”, como expressaram os bispos no Documento de Aparecida. Esse é um flagelo que atinge todos, especialmente os jovens.
Nessa busca por mudanças estão inscritos os desafios da educação, saúde, trabalho, moradia e o inegociável anseio, direito e exigência de todos os cidadãos, pela reforma política, particularmente com modos novos de fazer e de ser político. A caminhada dos jovens, com essa importante bandeira de que “a juventude quer viver”, merece apoios e nossa presença. A luz para esse novo tempo protagonizado pelos jovens é, incontestavelmente, o seu encontro com Jesus Cristo Vivo, seu seguimento na Igreja e na sociedade. Nesse sentido, lembro o Bem-Aventurado João Paulo II, o instituidor da Jornada Mundial da Juventude, quando diz que “só o que é construído sobre Deus e sobre o amor é durável”.
A caminhada com os jovens tem força de congregar todos por seu sentido significativo de cidadania. Sendo Jesus Cristo e seu Evangelho a razão maior, será uma caminhada ecumênica. Reunirá aqueles que acreditam na juventude e têm coragem de seguir com ela na busca por mudanças. Venham, vamos todos. Neste sábado e também no domingo, quando às 16h, na Praça da Estação, concluiremos a Semana Missionária e o importante Congresso Mundial de Universidades Católicas, realizado na PUC Minas. Depois, no Rio de Janeiro, solidariamente, renovaremos nosso compromisso de sempre caminhar com os jovens.
Até alguns séculos atrás, os católicos não alimentavam dúvidas sobre quem fosse a santa celebrada no dia 22 de julho. Seguindo a opinião do Papa São Gregório Magno, sob o nome de Maria Madalena, eles identificavam a pecadora pública (sem nome) perdoada por Jesus; Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro; e Maria de Mágdala, um povoado situado na costa ocidental do Mar da Galileia. Ultimamente, prevaleceu o pensamento de Orígenes e da Igreja Ortodoxa, e a Igreja Católica começou a distingui-la em três pessoas diferentes.
Qual delas é celebrada no dia 22 de julho? Será a prostituta, cuja conversão, juntamente com as parábolas do “Bom Samaritano” e do “Filho Pródigo”, é vista como uma obra-prima do Evangelho de Lucas? Na verdade, ainda hoje, em alguns países – e em vários filmes – o termo “madalena” é aplicado às profissionais do sexo. Que ela mereça ser enaltecida e seguida através dos séculos, não resta a menor dúvida, pois, por meio dela, Jesus nos revela a face de Deus: «Os numerosos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque demonstrou muito amor» (Lc 7,47). Uma pecadora pública capaz de um amor que apaga todos os pecados! Grande no mal, maior ainda na santidade!
Outra santa que poderia ser lembrada no dia 22 é Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro, uma família onde Jesus gostava de parar em suas visitas a Jerusalém. Se no dia 29 de julho – ou seja, apenas uma semana depois –, a liturgia lembra Santa Marta, por que não festejar também sua irmã, ela que «escolheu a melhor parte, que jamais lhe será tirada»? (Lc 10,42). Talvez a identificação feita (por São Gregório) de Maria de Betânia com a pecadora se deva ao fato de o Evangelho de São João apresentar uma cena bastante semelhante: «Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e havia enxugado os pés dele com os cabelos» (Jo 11,2).
Se não é a pecadora arrependida nem a irmã de Marta, quem será a verdadeira Maria Madalena? Citada 14 vezes nos Evangelhos, sua primeira aparição é assim narrada por Lucas: «Jesus percorria cidades e povoados pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Iam com ele os Doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de doenças físicas e espirituais: Maria, chamada Madalena, libertada de vários espíritos maus; Joana, esposa de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana e outras, que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam» (Lc 8, 1-3).
Onde, porém, Maria Madalena mais resplandece é no Calvário, como testemunha privilegiada da morte e da ressurreição de Jesus. Os Evangelhos atestam que, ao lado de Nossa Senhora, ela esteve sempre presente, juntamente com outra Maria, esposa de Cléofas e mãe de Tiago e de José, e Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e João. No domingo de Páscoa, ela foi a primeira a se encontrar com Jesus: «Jesus lhe disse: “Maria!”. Ela virou-se e exclamou: “Rabuni” (isto é, Mestre). Jesus continuou: “Não me segures, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: “Subo ao meu Pai e vosso Pai, ao meu Deus e vosso Deus”. Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”» (Jo 20, 16-18).
Sem se pronunciar sobre a identidade de Maria Madalena, as orações da missa do dia 22 de julho colocam em luz o carisma de cada uma das três mulheres. Na “oração do dia”, quem vem em relevo é a testemunha da ressurreição: «Ó Deus, o vosso Filho confiou a Maria Madalena o primeiro anúncio da alegria pascal. Dai-nos, por suas preces e a seu exemplo, anunciar também que o Cristo vive e contemplá-lo na glória do seu Reino». Por sua vez, o que a “oração sobre as oferendas” traz à memória é a conversão da pecadora: «Recebei, ó Pai, as oferendas que vos apresentamos na festa de santa Maria Madalena, cuja demonstração de amor vosso Filho acolheu com misericordiosa bondade». Por fim, a “oração depois da comunhão” contém uma clara referencia à Maria de Betânia: «Ó Deus, a comunhão nos vossos mistérios infunda em nós aquele amor perseverante que levou Maria Madalena a jamais separar-se do Mestre».
Três ou uma só, Maria Madalena nos revela o que de mais belo e decisivo pode acontecer na vida de uma pessoa: converter-se, escolhendo, a cada momento, a única coisa que importa: passar da morte para a vida através do amor...
Ide e fazei discipulos entre todas as nações! (cf. Mt 28, 19)
“A Jornada Mundial da Juventude em Madrid renovou nos jovens o chamado a serem o fermento que faz a massa crescer, levando ao mundo a esperança que nasce da fé. Sede generosos ao dar um testemunho de vida cristã, especialmente em vista da próxima Jornada no Rio de Janeiro”.
Essa convocação foi feita pelo Papa Bento XVI no anúncio do lema da Jornada Mundial da Juventude Rio2013: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19), durante a audiência geral no dia 24 de agosto.
Na ocasião a catequese foi dedicada a JMJ 2011, que havia terminado no dia 21 do mesmo mês. Bento XVI recordou com carinho a participação e a alegria dos cerca de dois milhões de jovens em Madrid, ao que ele chamou de “uma formidável experiência de fraternidade, de encontro com o Senhor, de partilha e de crescimento na fé: uma verdadeira cascata de luz.”
Por isso é tão importante que os jovens do Brasil e do mundo assumam desde agora esse chamado à missão e participem da Jornada como testemunhas vivas do Cristo.
Para o padre Geraldo Dondici Vieira, diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, esse é um lema para ser guardado no coração, refletido e meditado. “Esse tema, de fazer discípulos, de chamar outros discípulos para a comunhão e o convívio com o Senhor, é o tema mais querido do Evangelho de Mateus. Esse mandato, essa missão já está anunciada em todo o Evangelho. E, na verdade, só faz discípulo quem já é discípulo, quem convive com o Senhor”, afirmou o sacerdote.
Padre Dondici ressalta que esse testemunho e o próprio anúncio do Cristo, são grandes desafios pra juventude, que vive em um mundo plural, com milhares de informações, seja através das escolas, lazer, internet, especialmente no contato com as redes sociais, como o facebook, twitter: “Com essas mil participações, ele, jovem discípulo, é chamado a plantar no coração de quem ele encontrar, com quem ele se comunicar, o desejo de ser discípulo de Jesus”.
“O que ganha o discípulo de Jesus? Ganha a pertença ao reino, ganha a certeza do amor de Deus, ganha a certeza de ser para os outros sinal de misericórdia e de amor. Ganha o levar e doar a paz do Senhor. São esses frutos e dons que o mundo muito precisa. O perdão, a misericórdia, a paz é que irão diminuir na sociedade, no mundo de hoje, a violência, a guerra, a corrupção, a maldade, tudo aquilo que tira a possibilidade do jovem crescer e colocar toda a sua riqueza e vitalidade a serviço da humanidade”, afirmou.”
No mandato final do texto de Mateus – “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” –, explicou o padre, está um grande sonho antropológico de todos, de que o contato com o Senhor, a amizade com Ele, desperte o que cada um tem de melhor em si mesmo.
“Vivemos em um mundo onde há muitos desperdícios, perdas humanas, por falta de chance. O convívio com o Senhor desperta o que temos de melhor. O anúncio ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’ é um anúncio para a vida toda. Em nenhum momento podemos fazer um intervalo dele, porque ele supõe que aquele que é amigo do Senhor, pela sua vida, pelo seu estar no mundo, comunique aos outros a luz, a beleza e a alegria de ser discípulo do Senhor. Essa é a missão que a nossa Igreja precisa.
A cruz da JMJ ficou conhecida por diversos nomes: Cruz do Ano Santo, Cruz do Jubileu, Cruz da JMJ, Cruz Peregrina, e muitos a chamam de Cruz dos Jovens porque ela foi entregue pelo Papa João Paulo II aos jovens para que a levassem por todo o mundo, a todos os lugares e a todo tempo.
A cruz de madeira de 3,8 metros foi construída e colocada como símbolo da fé católica, perto do altar principal na Basílica de São Pedro durante o Ano Santo da Redenção (Semana Santa de 1983 à Semana Santa de 1984). No final daquele ano, depois de fechar a Porta Santa, o Papa João Paulo II deu essa cruz como um símbolo do amor de Cristo pela humanidade. Quem a recebeu, em nome de toda a juventude, foram os jovens do Centro Juvenil Internacional São Lourenço, em Roma. Estas foram as palavras do Papa naquela ocasião: “Meus queridos jovens, na conclusão do Ano Santo, eu confio a vocês o sinal deste Ano Jubilar: a Cruz de Cristo! Carreguem-na pelo mundo como um símbolo do amor de Cristo pela humanidade, e anunciem a todos que somente na morte e ressurreição de Cristo podemos encontrar a salvação e a redenção” (Sua Santidade João Paulo II, Roma, 22 de abril de 1984).
Os jovens acolheram o desejo do Santo Padre. Desde 1984, a cruz da JMJ peregrinou pelo mundo, através da Europa, além da Cortina de Ferro, e para locais das Américas, Ásia, África e Austrália, estando presente em cada celebração internacional da Jornada Mundial da Juventude. Em 1994, a cruz começou um compromisso que, desde então, se tornou uma tradição: sua jornada anual pelas dioceses do país sede de cada JMJ internacional, como um meio de preparação espiritual para o grande evento.
O ÍCONE DE NOSSA SENHORA
Em 2003, o Papa João Paulo II deu aos jovens um segundo símbolo de fé para ser levado pelo mundo, acompanhando a cruz da JMJ: o ícone de Nossa Senhora, “Salus Populi Romani”, uma cópia contemporânea de um antigo e sagrado ícone encontrado na primeira e maior basílica para Maria a Mãe de Deus, no Ocidente, Santa Maria Maior. “Hoje eu confio a vocês... o ícone de Maria. De agora em diante, ele vai acompanhar as Jornadas Mundiais da Juventude, junto com a cruz. Contemplem a sua Mãe! Ele será um sinal da presença materna de Maria próxima aos jovens que são chamados, como o apóstolo João, a acolhê-la em suas vidas” (Roma, 18ª Jornada Mundial da Juventude, 2003).
Tudo começou com um encontro promovido pelo Papa João Paulo II em 1984. Foi um encontro de amor, sonhado por Deus e abraçado pelos jovens. Vozes que precisavam ser ouvidas e um coração pronto para acolhê-las.
A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), como foi denominada a partir de 1985, continua a mostrar ao mundo o testemunho de uma fé viva, transformadora e a mostrar o rosto de Cristo em cada jovem.
São eles, os jovens, os protagonistas desse grande encontro de fé, esperança e unidade. A JMJ tem como objetivo principal dar a conhecer a todos os jovens do mundo a mensagem de Cristo, mas é verdade também que, através deles, o ‘rosto’ jovem de Cristo se mostra ao mundo.
A Jornada Mundial da Juventude, que se realiza anualmente nas dioceses de todo o mundo, prevê a cada 2 ou 3 anos um encontro internacional dos jovens com o Papa, que dura aproximadamente uma semana. A última edição internacional da JMJ foi realizada em agosto de 2011, na cidade de Madri, na Espanha, e reuniu mais de 190 países.
A XXVIII Jornada Mundial da Juventude será realizada de 23 a 28 de julho de 2013 na cidade do Rio de Janeiro e tem como lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19).
As JMJs tem sua origem em grandes encontros com os jovens celebrados pelo Papa João Paulo II em Roma. O Encontro Internacional da Juventude, por ocasião do Ano Santo da Redenção aconteceu em 1984, na Praça São Pedro, no Vaticano. Foi lá que o Papa entregou aos jovens a Cruz que se tornaria um dos principais símbolos da JMJ, conhecida como a Cruz da Jornada.
O ano seguinte, 1985, foi declarado Ano Internacional da Juventude pelas Nações Unidas. Em março houve outro encontro internacional de jovens no Vaticano e no mesmo ano o Papa anunciou a instituição da Jornada Mundial da Juventude.
A primeira JMJ foi diocesana, em Roma, no ano de 1986. Seguiram-se os encontros mundiais: em Buenos Aires (Argentina – 1987) - com a participação de 1 milhão de jovens; em Santiago de Compostela (Espanha – 1989) - 600 mil; em Czestochowa (Polônia – 1991) - 1,5 milhão; em Denver (Estados Unidos – 1993) - 500 mil; em Manila (Filipinas – 1995) – 4 milhões; em Paris (França -1997) – 1 milhão; em Roma (Itália – 2000) – 2 milhões, em Toronto (Canadá – 2002) – 800 mil; em Colônia (Alemanha – 2005) – 1 milhão; em Sidney (Austrália – 2008) – 500 mil; e em Madri (Espanha – 2011) – 2 milhões.
Além do fato de estar em outro país, com seus encantos turísticos, a participação na Jornada requer um corpo preparado para a peregrinação e um coração aberto para as maravilhas que Deus tem reservado para cada um. São catequeses, testemunhos, partilhas, exemplos de amor ao próximo e à Igreja, festivais de música e atividades culturais. Enfim, um encontro de corações que creem, movidos pela mesma esperança de que a fraternidade na diversidade é possível.
A Pastoral Juvenil Marista conta com uma Comissão Internacional encarregada de indicar para todo o Instituto diretrizes que possam orientar o trabalho dos animadores locais. Entre as metas alcançadas da Comissão está o documento “Evangelizadores entre os jovens”, que foi entregue a todo o Instituto Marista em 2011.
A última reunião da Comissão aconteceu no último mês de maio, na Casa Geral. Fizemos algumas perguntas aos membros da comissão sobre o trabalho na comissão e na Pastoral Juvenil Marista. Hoje apresentamos uma entrevista com o Ir Ifeanyi Mbaegbu, da Nigéria, membro da Comissão desde 2007.
Quais são as características mais peculiares dos jovens Africanos nos dias de hoje?
Os jovens em minha região são muito dinâmicos, cheios de energia, auto-motivados e, ao mesmo tempo, são jovens que se deparam com a crise de culturas estrangeiras e os avanços tecnológicos percebidos na Europa e na América.
Como está organizada a Pastoral Juvenil Marista em sua região?
A PJM está em sua fase inicial. Em alguns lugares, o movimento está aos poucos criando raízes, enquanto em alguns outros lugares o processo se mostra ainda lento, porque não há estruturas que sirvam de apoio para a PJM. No entanto, pode-se dizer que existe uma paixão pela PJM em todo o continente africano.
Em sua opinião quais são os desafios e dificuldades que a PJM enfrenta na África?
*Falta de conhecimento dos princípios básicos de animação dos jovens por parte de alguns Irmãos e leigos
*Fraco envolvimento de líderes e animadores de jovens leigos
*Conflito entre a estrutura da PJM e outras formas de organização da pastoral juvenil existentes em nossas escolas.
* Um grande número de Irmãos envolvidos com a PJM têm muitas responsabilidades e não dispõem de tempo adequado para acompanhar os grupos da PJM.
*Baixo investimento financeiro na PJM pelas Unidades Administrativas.
* Falta de interesse e apoio de alguns irmãos.
*Ausência de uma abordagem unificadora e de uma linguagem comum entre Irmãos, nas Unidades administrativas.
* Problemas de fronteira entre países, e de barreiras linguísticas em alguns lugares.
* Alguns Irmãos não estão dispostos a ir além da sala de aula e do trabalho no escritório.
Você tem algumas propostas a fazer?
* Há necessidade de uma orientação mais prática para a implantação do documento da PJM.
* Há necessidade de maior envolvimento da liderança provincial, dos diretores das escolas e dos superiores de comunidade na promoção da PJM nas Províncias.
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Produzo esta reflexão como uma contribuição a
respeito das inúmeras manifestações que aconteceram neste “país continente” e
sua relação com a dignidade humana.
Talvez algumas pessoas ao olhar para este título
se espantem e até curiosamente se perguntem: o que as manifestações recentes têm
a ver com a religião, com a Igreja, com a Teologia, com a espiritualidade
cristã?
“Tudo é teologizável”. Esta é uma afirmação de
Santo Tomás de Aquino, ou seja, pode-se fazer teologia a partir de qualquer
realidade, evidentemente desde que a partir dos fundamentos da fé (da Revelação,
da Tradição e do Magistério da Igreja). É partindo desta premissa que produzo
esta reflexão, como uma contribuição a respeito das inúmeras manifestações que
aconteceram neste “país continente” e tudo indica que vão continuar e sua
relação com a dignidade humana.
Quase todas as minhas contribuições neste espaço
têm um elemento convergente, que é a relação fé x vida, a Igreja e as questões
sociais, o pensamento social da Igreja, a dimensão social do Evangelho. As
manifestações populares são perpassadas por este viés. No fundo, o que está em
jogo é a dignidade humana, aviltada em cada pedaço deste país e, mesmo que as
manifestações não sejam motivadas pelo Evangelho, há um encontro muito feliz
porque o que interessa é o ser humano e “o caminho da Igreja é o ser humano”, já
dizia o beato João Paulo II em sua Carta Encíclica O redentor do homem (4/3/79,
nº 14).
As demandas são inúmeras, difusas e vieram não
contra o futebol, mas a partir de um confronto: a agilidade e eficiência do
Estado na obtenção de recursos para a construção das obras e de forma contrária
na ineficiência do Estado (o Executivo – Municipal, Estadual e Federal – e
também no Legislativo em seus três níveis), quando se trata da qualidade da
educação, do atendimento à saúde, a insegurança do cidadão que por vezes se
sentiu enganado pelo tique-taque enjoado, das conversas fiadas unilaterais de
quem representava qualquer um desses poderes.
Muito comum nas redes sociais e nos meios de
comunicação a ideia de que o povo brasileiro cansou e explodiu; o cansaço e a
enganação foram substituídos pelos gritos não só dos excluídos, dos machucados
tradicionalmente, mas de outras representações da sociedade brasileira.
Vou buscar na Instrução sobre a liberdade cristã
e a libertação (22/3/86) da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, uma
inspiração que se associa bem a esta reflexão, partindo do Êxodo e as
intervenções libertadoras de Javé: “Deus quer ser adorado por homens livres… O
acontecimento principal e fundacional do Êxodo tem, portanto, um significado ao
mesmo tempo religioso e político” (nº. 44).
Esta afirmação segundo a qual Deus quer ser
adorado por homens livres, de um lado questiona as inúmeras expressões de
adoração a Deus, dos louvores, da nossa expressão sentimental de tocar no
Santíssimo, sem, no entanto, nos inquietar com a história da sociedade, alheios
ao que acontece e de outro lado é referencial motivador para nossa ação agora
não a nível macro, mas no nível mais micro possível, ou seja, nos bairros onde
se situam nossas paróquias, áreas pastorais e contemplando os grandes problemas
identificados nas manifestações ver como eles aparecem onde estamos: a situação
dos postos de saúde ou hospitais, respectivo atendimento e a disponibilidade de
remédios básicos para diabéticos, controle de pressão arterial, controle das
diversas taxas; a questão educacional, da qualidade do transporte público, do
monitoramento da representatividade dos políticos em quem votamos que são nossos
funcionários e, em nome da dignidade humana, da defesa da vida produzirmos as
mesmas exigências.
Uma questão fundamental que aparece e disso temos
que nos desvencilhar é o individualismo e as paixões partidárias, substituindo
por causas comunitárias, pelo bem comum, porque, quanto mais nos relacionamos
com níveis mais próximos, estas questões podem ficar mais evidentes.
Neste particular, já que o tema em evidência
proposto pela CNBB é uma nova paróquia, que seja uma comunidade de comunidades,
nada mais oportuno no momento fazer uma leitura teológica destes acontecimentos:
entendermos o recado que Deus nos manda através destas inesperadas
manifestações, que estão mostrando as potencialidades da nação, a riqueza
política de um povo, que começa a controlar as ações de quem recebe mandato para
isto e na docilidade ao Espírito ser uma presença testemunhal.
*Almir Magalhães é sacerdote; é diretor geral e
professor da Faculdade Católica de Fortaleza e mestre em Missiologia pela
Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma.
Artigo publicado no Jonal O Povo em
http://www.opovo.com.br/app/opovo/espiritualidade/2013/07/13/noticiasjornalespiritualidade,3091536/as-manifestacoes-e-a-dignidade-humana.shtml.
O Ir. Lourenço levava na mochila um pão
de tamanho regular, queijo e batatas, sua provisão para semana. Embora fosse
robusto, os péssimos caminhos faziam-no suar sob o peso do fardo. O Pe.
Champagnat, vendo-o em tal situação, ponderou-lhe:
- Meu Irmão, seu trabalho deve ser muito pesado.
- Desculpe, Padre, não é pesado, para mim é muito agradável.
- Não acho que seja tão agradável assim subir as encostas desses morros cada
oito dias, caminhar na neve com um saco pesado nas costas, arriscando-se a
resvalar em algum precipício.
- Tenho plena convicção de que Deus conta nossos passos e haverá de retribuir,
com peso imenso de glória, os sofrimentos e as canseiras suportadas por seu
amor.
- Quer dizer que está satisfeito com andar lá para cima, para ensinar o
catecismo e dar aulas, carregando seu pão, como se fosse um mendigo?
- Tão satisfeito, padre, que não trocaria meu trabalho por todas as riquezas do
mundo.
- Bom, então você está gostando muito do trabalho, mas será que o merece?
- Ah! não! Estou convencido de que não mereço o privilégio de ensinar o
catecismo lá em Bessac: é pura bondade de Deus.
- Tudo o que você diz está certo; mas convenhamos que hoje é um dia horrível.
- Não, padre, considero-o um dos mais belos de minha vida.
Dizendo isto, tinha o rosto sorridente, transfigurado, e suaves lágrimas de
felicidade corriam de seus olhos. O Pe. Champagnat, comovido e consolado por
verificar tanta virtude, com muito esforço pôde conter as suas.
Vocacionados
Em meados da quaresma de 1822, ao
voltar, à noite, da oração e da homilia que fizera na igreja, o Pe. Champagnat
deparou-se com um jovem que lhe pedia o favor de ser admitido na comunidade.
Não simpatizou com o jeito e as maneiras do jovem. Suspeitou dos motivos que o
traziam e perguntou-lhe sem muito interesse a respeito da profissão e
procedência. Ao saber que era egresso dos Irmãos das Escolas Cristãs, onde
permanecera seis anos, disse-lhe:
- Se você não serve para os Irmãos do Senhor de la Salle, ou se o gênero de
vida deles não lhe convém, você é inútil para nós e vou ser bem claro: não
posso recebê-lo.
Contudo, sendo já noite, não achou conveniente recusar-lhe hospitalidade:
“Pernoitará aqui, concluiu, e amanhã irá embora”. O jovem, que tinha real desejo
de ficar, certamente por não saber o que fazer na vida, usou de todos os meios
para interessar o Pe. Champagnat em seu favor e conquistar-lhe a
confiança. Após a refeição falou demoradamente da sua região e das inúmeras
vocações que os Irmãos das Escolas Cristãs ali recrutavam. Percebendo que o
assunto agradava ao Pe. Champagnat, acrescentou: “Se eu for admitido, prometo
trazer-lhe vários postulantes meus conhecidos”.
No dia seguinte, continuou insistindo para ser aceito. Foi-lhe permitido passar
dois ou três dias na casa. A experiência não satisfez plenamente o Pe.
Champagnat. Achou muito ambíguo o jeito do moço; chamou-o e mandou-o embora.
Depois de novas e inúteis instâncias para sua admissão, o ex-irmão, vendo que
nada conseguia, perguntou-lhe:
O senhor me aceitará se lhe trouxer meia dúzia de bons candidatos?
- Sim, mas quando os tiver trazido, respondeu Champagnat.
- Pois bem, passe-me uma autorização para legitimar minha tarefa.
Queremos ver-se livre dele, Champagnat redigiu um documento vago e, entregá-lo,
disse-lhe:
-Vá e fique com seus pais ou, o que seria melhor, volte para a comunidade de
onde saiu; nossa casa e nosso modo de vida não lhe convém.
Com o documento na mão, o jovem partiu para sua terra, distante umas quinze
léguas de Lavalla. Assim que chegou à casa paterna, não perdeu tempo. Em menos
de uma semana convenceu oito rapazes a partirem para Lavalla, ou melhor, para
Lião, pois tivera a precaução de não lhes dizer que os levaria a Lavalla. Na
região, consideravam-no membro da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs.
Não citou sequer o nome dos Irmãozinhos de Maria, nem os rapazes nem sempre
pais poderiam pensar que se tratasse de um Instituto totalmente desconhecido
para eles.
No contrato firmado para determinar as pensões e a época do pagamento estava
escrito que os postulantes iriam para o noviciado dos Irmãos das Escolas
Cristãs em Lião e não se fazia mínima alusão ao Pe. Champagnat nem aos
Irmãozinhos de Maria . Não é de admirar que esse jovem tenha conseguido reunir,
com incrível facilidade, tão elevado número de colegas. Além de aparecer
claramente neste episódio a mão de Deus, ignorava-se a conduta irregular desse
infeliz. Sua família figurava entre as mais distintas da região, pelas posses e
pela piedade. Por isso foi-lhe fácil aliciar aqueles postulantes. Vários deles,
aliás, já havia decidido ingressar na vida religiosa e tinham até reservado
vaga no noviciado de Lião. Poucos dias foram suficientes para aprontar o
enxoval e ultimar os preparativos da partida.
Em fins de março de 1822, os piedosos jovens, juntamente com o guia, puseram-se
a caminho, na funda convicção de que se dirigiam para o noviciado dos Irmãos
das Escolas Cristãs em Lião. Após dois dias chegaram ao cimo do morro defronte
a Lavalla. “Estão vendo”, diz o ex-Irmão, apontando para o campanário da
paróquia, “é lá que termina nossa viagem”.
- O quê! exclamaram os postulantes; é para lá que vamos? Mas lá não é Lião.
- Não, não é Lião; mas temos aqui um noviciado no qual passarão alguns dias e,
em seguida serão levados a Lião.
A chegada do ex-Irmão, com seu grupo, causou grande surpresa ao Pe. Champagnat.
Naquele momento estava virando terra na horta. Largou tudo e foi falar com
eles. Parece-me ainda vê-lo, comenta um dos jovens do grupo, a medir-nos de
alto a baixo, com a estupefação de quem não contava com nossa chegada. Depois
de algumas perguntas para certificar-se de nossas disposições e dos motivos que
nos traziam, acabou por declarar que não podia receber-nos. Essas palavras nos
causaram enorme surpresa e nos fizeram sofrer muito. Percebendo isso, o Pe.
Champagnat acrescentou para nos consolar: “Vou rezar e examinar o problema
diante de Deus; fiquem até amanhã”.
A maioria desses postulantes tinha impressionado bem a Champagnat. Se fazia
dificuldades em recebê-los, era porque não os conhecia e receava que a vocação
deles não fosse suficientemente comprovada, não tivesse motivos bastante puros,
fosse apenas o resultado das solicitações daquele que os trouxera com o
objetivo de ser pessoalmente aceito. Serem numerosos, era outra preocupação:
“Os rapazes decidiram-se talvez convencidos pelo guia. Ora, se der na
veneta de algum deles de voltar para casa, é provável que os outros
desanimem também e todos voltem como vieram, uns por causa dos outros”.
Além de tudo, o grupo era numeroso demais em relação à moradia. Faltava e até
camas. Foi necessário mandá-los dormir no celeiro, sobre a palha. Enfim,
faltavam também recursos: a maioria desses rapazes podia pagar apenas uma
pensão insignificante, e a casa que mal se mantinha não estava em condições de
fazer sacrifícios em favor deles. Por isso, Champagnat julgou conveniente
consultar os principais Irmãos.
No dia seguinte, mandou chamar os postulantes e lhes disse: “Ainda não posso
prometer que os receberei. Devo antes consultar os Irmãos. Permito-lhes somente
ficarem alguns dias conosco. Mas, como não temos certeza de poder admiti-los
todos, quem estiver com vontade de ir embora pode ir. Escreveu uma carta aos
Irmãos de Bourg-Argental e outra aos de Saint-Sauveur, mandando os vir ter com
ele por ocasião das festas da Páscoa, dentro de dez dias. Quando os Irmãos
chegaram, reuniu-os diversas vezes no seu quarto; refletiu com eles sobre os
desígnios de Deus para com a Congregação nascente que, naquela ocasião,
pareciam manifestar-se, e declarou-lhes que, na sua opinião, os rapazes deviam
ser aceitos, uma vez que haviam sido visivelmente trazidos pela Providência.
Todos os Irmãos foram do mesmo parecer. Decidiu-se que os oito postulantes
seriam admitidos, juntamente com o guia. Seriam, porém, submetidos a provas
especiais, para testar a autenticidade da vocação.
Quem não concordou com Champagnat foram as pessoas amigas. Pelo contrário,
desaprovaram abertamente a resolução adotada. Pressionaram-no de todas as
formas para que afastasse os recém-chegados: “O senhor não pode conservar esse
grupo de jovens. Onde conseguirá recursos para alimentá-los? Sua casa é pequena
demais para alojá-los. Sabe o que vai acontecer se ficar com eles? Acabarão
indo embora depois de acarretar-lhe vultosas despesas. Alimentar e manter todos
esses jovens está acima de suas posses. A prudência exige que vá devagar, sem
impor levianamente fardo tão pesado à sua comunidade. O senhor precisa, pelo
menos, despedir os mais jovens. São muito crianças para saberem se têm
vocação”. Champagnat fizera sua opção e nada o podia abalar. Mas, homem
prudente, lançou mão de todos os meios sugeridos pelo espírito de Deus para
experimentar os postulantes e saber se convinham ou não à congregação. Em vez
de pô-los no estudo, empregou-os no cultivo da terra, da manhã à noite. Exigiu
deles rigoroso silêncio e ocupação constante. O “capítulo das culpas”, as
repreensões, os castigos pelas mínimas transgressões, nada poupado, mas nada
conseguiu abalar a decisão dos rapazes.
Champagnat, surpreso e edificado com tanta constância, resolveu impor aos mais
jovens uma última provação. Reuniu-os na presença dos Irmãos da casa e
disse-lhes: “Meus amigos, visto que desejam absolutamente ficar aqui e
tornar-se filhos de Maria, resolvi aceitá-los todos. No entanto, sendo alguns
jovens demais para conhecerem a própria vocação, decidiu mandá-los trabalhar de
empregados na casa de alguns pequenos proprietários para cuidarem do gado. Se
procederem bem, contentarem os patrões e mantiverem a disposição de abraçar a
vida religiosa, vou admiti-los definitivamente ao noviciado na próxima festa de
Todo os Santos”. E dirigindo-se ao mais jovem:
- Você concorda?
- Pois não! Já que o senhor quer. Mas somente se me der a certeza de que me
receberá no tempo em que o senhor marcou.
A essa resposta o Pe. Champagnat emuduceu de admiração; baixou os olhos e,
após alguns momentos, disse.
- Muito bem! Aceito-os todos, agora mesmo.
De onde podia vir a persistência desses jovens? Qual a causa de seu apego a um
Instituto que lhes opunha tantos obstáculos à admissão? Um deles vai explicar.
Ouçamo-lo em sua linguagem singela: “Não tinham razão de desconfiar tanto de
nós e de suspeitar das razões que nos moviam. Fossem humanos os motivos, não
teríamos ficado um só dia. Quem nos seguraria numa casa onde só víamos pobreza,
onde dormíamos num celeiro, onde a cama era só um pouco de capim seco? Onde
tínhamos como alimentos alguns legumes e um pouco de pão que se
esfarelava todo e onde a bebida era somente água? Numa casa onde, de manhã
à noite, éramos ocupados num trabalho penoso, cujo único salário eram algumas
repreensões ou castigos, que devíamos aceitar com profundo respeito? Se nos
perguntarem, agora, o que poderia agradar-nos numa situação tão contrária à
natureza, o que nos apegava tanto a uma Sociedade que nos repelia, responderei:
foi a devoção que ela professava à Virgem Maria. No dia seguinte de nossa
chegada, o Pe. Champagnat entregou um terço a cada um, falou-nos, várias vezes,
de Maria Santíssima naquele tom persuasivo que lhe era natural,e narrou-nos
alguns fatos que mostravam sinais da proteção da divina Mãe. As coisas
maravilhosas que nosso bom Padre nos contava de Maria calaram tão profundamente
na alma de todos nós, que nada no mundo teria conseguido afastar-nos da nossa
vocação”.
Finalizaremos este relato, acrescentando que o infeliz guia destes postulantes
foi expulso quinze dias depois, por idêntica falta que motivara sua saída da
Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs: atentado contra os bons costumes.
Aqui, naturalmente, cabe a reflexão que pode ser utilíssima para os que duvidam
da vocação, pelo fato de ter sido determinada, em sua origem, por motivos
humanos ou porque teve o homem como promotor. “Mesmo que a vocação à vida
religiosa viesse do demônio, afirma Sto. Tomás, deveria ser abraçada como
excelente conselho, embora dado pelo inimigo. Além disso, acrescenta o santo
doutor, se o impulso à vocação proviesse de satã, não se deveria concluir daí
que não pudesse vir ao mesmo tempo de Deus, que muitas vezes permite que a
malícia do inimigo da humanidade resulte em seu prejuízo e em nosso proveito,
fazendo-nos, assim, decapitar esse Golias com sua própria espada. Porventura
não usou a maldade dos irmãos de José para exalçá-lo ao governo do Egito? E
acaso não tirou da traição de Judas e da perfídia dos judeus os meios para
realizar nossa Redenção? Assim, o amor à vida religiosa, seja qual for a causa
ou o promotor, só pode ter Deus como origem.
Nossos oito postulantes, embora trazidos ao Instituto por um religioso que
havia profanado a santidade de seu estado e perdido sua vocação, não eram por
isso menos vocacionados. Entre eles estavam bons religiosos; estava um
assistente; estava quem trabalhou mais de quinze anos reunindo os documentos
que serviam para compor esta biografia do piedoso Fundador.
(p.85-90).
Pensamentos
***
“O Irmão que não reza não sabe praticar a virtude nem fazer o bem entre os
alunos; é somente na oração que se aprendem estas coisas.”
***
“A Vida Religiosa é essencialmente vida de oração porque, além de exigir que se
reze mais do que os simples fiéis, é para ter contato mais freqüente com Deus
que nos tornamos religiosos. É impossível cumprir as obrigações da vida
consagrada sem verdadeira e sólida piedade.”
***
“O religioso sem piedade nunca vai amar nem estimar sua vocação, porque nela
viverá sem consolação.”
***
“Ah! como a virtude é fácil, como os sacrifícios que ela exige custam pouco,
quando se ama a Jesus! O amor a Jesus é, para o religioso que percorre o
caminha da virtude, como as velas para as embarcações que singram o oceano. Sem
se dar conta, este amor conduz às mais sublimes virtudes.”
***
“O apego ao dinheiro leva os homens do mundo a se entregarem sem trégua aos
trabalhos mais árduos e aos mais duros sacrifícios. Seria uma vergonha se o
amor a Jesus exercesse menor motivação sobre o religioso.”
***
“Aquele que tem grande amor a Maria terá certamente grande amor a Jesus. Por
isso, os santos que tiveram particular devoção a Maria, como S. Bernardo, S.
Boaventura, S. Francisco de Assis, Sto. Afonso de Ligório, Sta. Tereza,
distinguiram-se por grande amora a Jesus.”
***
“Maria não guarda nada para si. Quando a servimos, quando nos consagramos a
ela, só nos recebe para oferecer-nos a Jesus, para nos impregnar de Jesus.”
***
“Foi ao discípulo amado que Cristo confiou sua Mãe, para nos ensinar que
concede amor especial à Virgem Santíssima somente às almas privilegiadas, sobre
as quais tem planos especiais de misericórdia”.
***
“A pobreza, a mortificação, a humildade e, em geral, todas as virtudes, são
como as rosas entre espinhos. As pessoas do mundo somente enxergam e sentem os
espinhos e por isso têm medo da virtude. Os religiosos sentem e saboreiam os
encantos, as delícias e as consolações da virtude e assim não percebem os
espinhos, isto é, as dificuldades inerentes.”
***
“O bom religioso sente mais felicidade e consolo num só exercício de piedade,
como a meditação, a assistência à missa, um quarto de hora de visita ao
Santíssimo, do que os afortunados do mundo podem ter em todos os prazeres de
uma longa vida.”
***
“Por que são os mundanos tão espalhafatosos em seus prazeres e no meio das
alegrias profanas? Porque não conseguem abafar inteiramente os remorsos que os
perseguem; porque sua felicidade é apenas aparente e seu coração infeliz só encontra
amargura nas satisfações sensuais.”
***
“Por sua vocação, todos os Irmãos são apóstolos enviados para ensinarem às
crianças os ministérios da religião e lhes anunciarem a boa nova da salvação de
Jesus Cristo nos mereceu.”
***
“Há muitos modos de dar o catecismo, isto, é ensinar as verdades da salvação e
levar ao bem as crianças e as demais pessoas. Rezar pelas crianças que nos são
confiadas, pela conversão dos pecadores e dos infiéis é também fazer boa
catequese, assim como é bom catequista aquele que dá sempre o bom exemplo e é,
em toda parte, modelo de piedade, regularidade, modéstia e caridade.”
***
“Esses dois modos de dar catecismo, além de servir a todos os Irmãos, em
qualquer função que exerçam, e independentemente de seus talentos e capacidade,
são as mais eficazes e mais fáceis do que explicar a doutrina cristã às
crianças. São mais eficazes porque a graça, única realidade absolutamente
necessária à salvação, se consegue mais seguramente pela oração e pela
santidade da vida do que por qualquer outro meio; mais fáceis, porque é
possível rezar e praticar a virtude em qualquer tempo e lugar.”
(p.94-96)
Nos primeiros dias de julho começou a funcionar, em Roma, a Equipe Internacional de Irmãos Hoje, formada pelos Irmãos Hipólito Pérez (América Central); James Pinheiro (Brasil Centro-Norte); Daniel O’Riordan (EUA); Juan Carlos Fuertes (Mediterrânea); Norbert Mwila (África Austral); Albert Nzabonaliba (África Centro-Leste); Saul Placious (Ásia do Sul); Peter Rodney (MAPAC); Jean Marie Batick (Melanésia); Tony León (Austrália). Sua finalidade é de apoiar, com uma reunião anual, o Secretariado Irmãos Hoje, especialmente nas áreas da pastoral vocacional e da formação inicial.
Outras duas comissões internacionais foram nomeadas, para dar resposta a dois mandatos capitulares:
· a primeira, para elaborar um plano de autonomia econômica das UA, formada pelos Irs. Víctor Preciado (Ecônomo geral), coordenador; Mario Meuti (FMSI); Francisco Baeza (África Centro-Leste); Jude Pieterse (África Austral); Mervyn Perera (Ásia do Sul); Robert Teoh (Ásia do Leste); Tata Oliver (África Ocidental); John Bwanali (MIC, África Austral); Jean-Thomas Randrianantenaina (Madagascar); Celestin Okoye (Nigéria); Sr. Marco Cândido (Brasil Centro-Sul);
· a segunda, para pôr em marcha e acompanhar o processo de revisão das Constituições, formada pelos Irs. Nicholas Fernando (Ásia do Sul), Diogène Musine (África Centro-Leste), John Hazelman (Nova Zelândia), Patrick McNamara (EUA), Deivis Fischer (Rio Grande do Sul), Juan Ignacio Fuentes (Cruz del Sur) e Antonio Leal (Compostela). Coordenarão a comissão os Irs. Emili Turú, Joseph Mckee e Antonio Leal .
Nomeações a serviço da Administração geral:
- Ir. César Rojas (Norandina), Diretor do Secretariado Irmãos hoje, para um segundo triênio;
- Ir. Javier Espinosa (América Central), Diretor do Secretariado de Leigos, para um segundo triênio;
- Codiretores do Secretariado de Leigos: Sr. Tony Clarke (Austrália), para um segundo triênio, e Sr. Josep Buetas (L’Hermitage);
- Ir. Joarês Pinheiro, Diretor adjunto dos programas de formação permanente em língua espanhola e portuguesa;
- FMSI-Genebra: Irmãos Manel Mendoza (L’Hermitage) e Vicente Falchetto (Brasil Centro-Norte), para um segundo triênio; Ir. Evaristus Kasambwe (África Austral), que vai incorporar-se a esse serviço no próximo mês de outubro;
- A partir do mês de janeiro 2014 o Ir. Colin Chalmers (Europa Centro-Oeste) vai iniciar como Arquivista geral. Até então, o Ir. Juan Moral continuará assumindo essa função.
A Pastoral Juvenil Marista conta com uma Comissão Internacional encarregada de indicar para todo o Instituto diretrizes que possam orientar o trabalho dos animadores locais. Entre as metas alcançadas da Comissão está o documento “Evangelizadores entre os jovens”, que foi entregue a todo o Instituto Marista em 2011.
A última reunião da Comissão aconteceu no último mês de maio, na Casa Geral. Fizemos algumas perguntas aos membros da comissão sobre o trabalho na comissão e na Pastoral Juvenil Marista. Hoje apresentamos uma entrevista com o Ir Ifeanyi Mbaegbu, da Nigéria, membro da Comissão desde 2007.
Quais são as características mais peculiares dos jovens Africanos nos dias de hoje?
Os jovens em minha região são muito dinâmicos, cheios de energia, auto-motivados e, ao mesmo tempo, são jovens que se deparam com a crise de culturas estrangeiras e os avanços tecnológicos percebidos na Europa e na América.
Como está organizada a Pastoral Juvenil Marista em sua região?
A PJM está em sua fase inicial. Em alguns lugares, o movimento está aos poucos criando raízes, enquanto em alguns outros lugares o processo se mostra ainda lento, porque não há estruturas que sirvam de apoio para a PJM. No entanto, pode-se dizer que existe uma paixão pela PJM em todo o continente africano.
Em sua opinião quais são os desafios e dificuldades que a PJM enfrenta na África?
*Falta de conhecimento dos princípios básicos de animação dos jovens por parte de alguns Irmãos e leigos
*Fraco envolvimento de líderes e animadores de jovens leigos
*Conflito entre a estrutura da PJM e outras formas de organização da pastoral juvenil existentes em nossas escolas.
* Um grande número de Irmãos envolvidos com a PJM têm muitas responsabilidades e não dispõem de tempo adequado para acompanhar os grupos da PJM.
*Baixo investimento financeiro na PJM pelas Unidades Administrativas.
* Falta de interesse e apoio de alguns irmãos.
*Ausência de uma abordagem unificadora e de uma linguagem comum entre Irmãos, nas Unidades administrativas.
* Problemas de fronteira entre países, e de barreiras linguísticas em alguns lugares.
* Alguns Irmãos não estão dispostos a ir além da sala de aula e do trabalho no escritório.
Você tem algumas propostas a fazer?
* Há necessidade de uma orientação mais prática para a implantação do documento da PJM.
* Há necessidade de maior envolvimento da liderança provincial, dos diretores das escolas e dos superiores de comunidade na promoção da PJM nas Províncias.
Senhor, tudo o que existe no céu e na
terra, vos pertenceste. Desejo também tornar-me propriedade vossa pela oblação
voluntária, para, em tudo, cumprir vossa santa vontade e trabalhar eficazmente
na minha santificação e na das pessoas que me confiastes. Neste intenção
prometo-vos fidelidade ao seguinte.
1º) Vou consagrar todos os dias, pelo menos meia hora, à meditação e, quando
possível, ao levantar-me antes de sair do quarto.
2º) Jamais deixarei de prever o assunto de meditação e de prepará-lo com muito
cuidado.
3º) Nunca celebrarei a santa missa sem ter feito antes um quarto de hora
de preparação. Após a missa, dedicarei outro quarto de hora à ação de graças.
4º) Todos os anos lerei, uma vez, as rubricas do missal.
5º) No decorrer do dia, visitarei o Santíssimo Sacramento e a Santíssima
Virgem.
6º) Todas as vezes que tiver de sair para visitar um doente ou resolver alguma
coisa, farei igualmente uma visita a Jesus sacrametnado e outra, a Maria. Assim
também procederei ao voltar, a fim de agradecer a Deus os favores recebidos e
pedir-lhes perdão das faltas que, por aventura, tiver cometido.
7º) Não esquecerei de fazer meu exame de consciência todas as noites.
8º) Sempre que no exame eu me reconhecer culpado de maledicência, aplicar-me-ei
três chicotadas de disciplina. Assim farei também, quando reconhcer que
pronunciei palavras de vanglória.
9º) Estudarei Teologia diariamente, durante uma hora.
10º) Não darei nenhuma instrução sem tê-la preparado.
11º) Continuamente lembrar-me-ei de que tenho Jesus no coração.
12º) Permanecerei na presença de Deus em todas minhas ações e evitarei a
dissipação, com o máximo cuidado.
13º) Exercitar-me-ei, de modo particular, na virtude da mansidão; e, para
atrair, mais facilmente o próximo a Deus, tratarei a todos com muita bondade.
14º) Dedicarei parte da tarde à visita aos doentes da paróquia, se houver.
15º) Depois da missa, confessarei as pessoas que se apresentarem. O restante da
manhã sera reservado ao estudo, se as funções do ministério não exigirem minha
presença em outra parte.
16º) Quanto às refeições, à maneira e passar o recreio e praticar os demais
exercícios do dia, procurarei seguir, no que depender de mim, o Regulamento do
seminário maior.
17º) Lerei esse meu regulamento e essas resoluções uma vez por mês.
18º) Todas as vezes que faltar a algum dos artigos relativos às práticas de
piedade, me aplicarei a disciplina, em união aos sofrimentos de Jesus Cristo.
Quero que os açoites sejam um ato de amor e de fé, e pedirei à Santíssima
Virgem que ela mesma torne esse ato, insignificante em si, agradável à
Santissíma Trindade”.
Para complementar esse regulamento,
acrescentamos: levantava pontualmente às quatro horas; fazia a meditação e logo
se encaminhava para a igreja, onde rezava a missa, exceto se alguma
circunstância o obrigava a retardá-la. Ocupava o dia com a oração, o estudo e
as funções do sagrado ministério. Saía raras vezes, só para visitar os doentes
ou fazer alguma obra de caridade. Passava o tempo de lazer com o pároco ou se
dedicava a um trabalho manual. Emfim, ia deitar geralmente entre nove e dez
horas da noite.
Obediência
Para o Pe. Champagnat foi grande
consolação manter-se assim em contato permanente com o pároco, tomando-o como
guia de procedimento, aproveitando-lhe a experiência e formando-se, sob seus
olhares e sua direção, nas sublimes funções do santo ministério. Teve sempre
por ele profundo respeito e filial afeição. Disso dava provas em todas as
ocasiões. Nunca fez nada sem consultá-lo, nem jamais empreendeu alguma boa obra
sem lhe pedir o parecer e obter aprovação de seus projetos. Mostrou-se também
sempre disposto e sempre pronto a substituí-lo para levar o santo Viático aos
doentes dos povoados distantes, ou exercer outras funções difíceis do
ministério sagrado. Porém, seu objeto principal era conquistar-lhe a estima e o
afeto dos paroquianos. Defendia-o sempre e em toda parte, apoiava-lhe a
autoridade; justificava-lhe o comportamento perante os que o censuravam e,
mesmo nos casos em que não tinha razão, sabia desculpá-lo, interpretando
favoravelmente o motivo da crítica. Embora às vezes tivesse motivos de
queixar-se dele, como veremos, nunca deixou de proceder assim, conservando-lhe
sempre amizade e dando, diariamente, provas de respeito e submissão pelos
cuidados que lhe dispensava, pela dedicação em servi-lo e causar-lhe
alegria.(p.34).
Cativante e Amoroso
Convencido de que, para se fazer o bem
e levar as pessoas a Deus, é preciso conquistar-lhes a afeição e a estima,
quando chegou a Lavalla o Pe. Champagnat tratou de conquistar a confiança
de seus paroquianos. Seu caráter alegre, franco, expansivo, sua aparência
simples, modesta, risonha, simpática e nobre ao mesmo tempo, contribuíram
muito. Ao passar pelas ruas, e quando encontrava alguém, sempre tinha de dizer
alguma coisa engraçada, uma palavra de elogio, consolo ou animação. Conversando
familiarmente com todos, sabia pôr-se ao alcance de cada um, adaptar-se ao seu
gênio, entender seus pontos de vistas e o modo de ver as coisas. Após haver lhe
preparado o espírito, termina a rápida conversa com uma palavra de edificação,
um bom conselho ou leve reparo, se fosse o caso.
Encontrando-se com crianças, muitas
vezes parava para dizer-lhes palavras de animação, fazer-lhes pequena carícia,
dar-lhes santinhos e fazer perguntas do catecismo, muito ansioso em relação às
pessoas idosas, compreensivo e indulgente para com os jovens, repleto de
caridade e compaixão para com os pobres, de bondade e caridade para com todos
para levá-los a amar a religião e conquistá-los a Jesus Cristo. Porém, o que o
mais contribuiu para atrair-lhe a estima e benevolência dos fieis foi sua
conduta edificante, sua virtude, piedade, regularidade e fidelidade a todos os
deveres. Estava sempre disponível e sempre se mostrava afável, fosse qual fosse
a hora em que vinham solicitar-lhe serviços, ou chamassem à igreja ou para
junto aos doentes.
p.35-36.
Um Ótimo padre
Não limitava seus cuidados às crianças
que se preparavam para a primeira comunhão, mas pedia, encarecidamente, que
também lhe mandasse os menores. Temendo, porém, que alguns pais, principalmente
os que moravam mais longe da igreja, não atendessem às suas recomendações, por
demasiada ternura para com os filhos ou por exagerado receio de eventuais
acidentes, usou outro expediente para atrair ao catecismo essas criaturinhas.
Prometeu uma recompensa para quem trouxesse uma criança. O piedoso expediente
produziu resultado maravilhoso. Já no dia seguinte, vários jovens voltaram com
alegria e sofreguidão à catequese, trazendo, um, o irmãozinho; outro, o primo;
um terceiro, o coleguinha ou o vizinho pelo qual se responsabilizara e que
deveria levar de volta à mãezinha, sem acidente.
Os prêmios prometidos não tardaram e o
modo como foram distribuídos despertou no coração de todos o desejo de merecer
igual recompensa pela apresentação de um coleguinha. Com isso, o catecismo teve
a freqüência muito aumentada e, em pouco tempo, reuniu todas as crianças da
paróquia. O zelo do Pe. Champagnat devia estar satisfeito. Deus haveria de
recompensá-lo, o que não tardou. Certo dia, um menino que se preparava para a
primeira comunhão veio acompanhado do maninho e apresentou-o ao Pe. Champagnat,
para receber um santinho que lhe foi dado imediatamente. Mas, quem era essa
criança tímida, a transpirar candura e inocência? Era Gabriel Rivat, futuro Ir.
Francisco, seu sucessor imediato no governo geral do Instituto.(p.38-39).
Pregações(p.40).
Os sermões do Pe. Champagnat não
produziram menos frutos do que os catecismos. No púlpito expremia-se com
veemência. Nele, tudo falava: o gesto, a aparência humilde e piedosa, o tom de
voz, a palavra viva, sonora e inflamada, tudo contribuía para comover e
convencer os ouvintes. Nunca subia ao púlpito sem ter-se preparado pelo estudo,
reflexão e oração. Começou com breves exortações. A primeira consistia em
simples reflexões. Entretanto, agradou a todos os ouvintes. Ao saírem da
igreja, diziam: “Nunca tivemos aqui um padre que pregasse tão bem!” Essa
opinião difundiu-se na paróquia e as famílias procuravam informar-se do dia em
que ele devia pregar. O povo acorria então e a igreja ficava sempre cheia.
Habitualmente os sermões versavam sobre
as grandes verdades: morte, juízo, inferno, gravidade do pecado, necessidade da
salvação e a desgraça da condenação eterna. Pregava essas verdades com tanta
veemência quem por várias vezes, arrancou lágriamas do auditório e abalou
os pecadores mais empedernidos. Suas palavras, repassadas de clareza, ardor e
unção, empolgavam os espíritos e sensibilizavam os corações. Às lágrimas que
corriam dos olhos sucederam os remorsos, o arrependimento de ter ofendido a
Deus e o desejo sincero de recuperar a graça divina e de, no fundo, servir a
Deus com fidelidade. Em pouco tempo operou-se maravilhosa transformação em toda
a paróquia. A fé revigorou-se, a piedade refloreceu, os sacramentos voltaram a
ser freqüentados e a renovação foi quase geral.
Confissão
Houve numerosíssimas confissões gerais,
com frutos incalculáveis que mudaram a fisionomia da paróquia. As conversões,
iniciadas nos sermões, completavam-se no confecionário. Inexprimível era a
bondade do seu coração para com os penitentes: falava-lhes com tanto carinho
tanta caridade e tanta convicção, que muitas vezes eles prorrompiam em
choro. Suas palavras tinham o dom particular de incutir horror ao pecado,
afastar do vício e despertar o amor e à virtude. Falava: “Ele é de Rozet, por
isso as palavras dele são macias e agradáveis como as rosas”. Entrentanto,
apesar de repassadas de doçura, suas exortações, nem de longe, bajulavam os
pecadores. Pelo contrário, levavam-nos ao arependimento, ao ódio do pecado e à
vontade impaciente de se livrar dele e inspiravam o propósito de abandoná-lo de
vez. A quase totalidade dos que ele teve a felicidade de converter perseverou
na prática da virtude.
Antes de sua vinda a Lavalla, muitas
pessoas não se confessavam havia muito tempo. Outras contentavam-se com a
confisão pascal, cumprindo raramente os demais deveres religiosos. O Pe.
Champagnat teve a consolação de converter a uns e reavivar a fé de outros.
Falou-lhes com tanto empenho e unção dos bens infinitos que temos em Jesus Cristo,
e dos sacramentos que no-los comunicam, que os confessionários foram assediados
e as comunhões mensais quadruplicaram. Como a maior parte dos fiéis se dirigia
a ele, aos sábados, domingos e grandes festas, via-se constrangido a passar
grande parte da noite no confessionário. Aos domingos e dias santos ia cedinho
à igreja. Já encontrava muita gente esperando para confessar-se. Trancava-se no
confessionário até as onze, quando saía para cantar a missa solene, sempre
seguida das vésperas.(p.40-41).
Uma de suas pregações
“Caríssimos irmãos (dizia num domingo),
estamos no tempo dos grandes trabalhos. Os dias são longos e o calor,
sufocante. Vocês vão para o trabalho de manhã muito cedo e voltam, muitas
vezes, somente à noite. Cansam-se e suam o dia inteiro. Quantos méritos podem
juntar para o céu, se quiserem! Como se tornarão agradáveis a Deus! Quantas
graças derramará sobre vocês, se souberem santificar as ações e os sofrimentos!
E para isso, o que precisam? Oferecê-los de manhã a Deus e unir as canseiras e
dores às de nosso Salvador. Antes de iniciar a jornada e, de vez em quando
durante o dia, ofereçam o trabalho a Deus. Digam-lhe: Meu Deus, quero fazer e
suportar tudo isso para fazer vossa vontade, imitar Jesus Cristo, expiar meus
pecados, merecer vossos favores e o céu, e também para que abençoeis meus
filhos e tudo o que me pertence.”(p.42)
Pregação nas festas
Um dia, chegando da igreja, após
atender as confissões até altas horas da noite, em vez de jantar disse ao Irmão
que o aguardava:
- Vou sair.
- Padre, aonde vai a estas horas?
- Visitar um doente.
- Antes precisa jantar.
- Não, não tenho tempo.
Vendo-o sair, o Irmão ofereceu-se para acompanhá-lo. Aceitou. O doente não
estava em perigo, mas o Pe. Champagnat pensava em outra coisa. É que ao
voltar da igreja, tinha recebido informação de que haveria danças em várias
povoações. Era tempo de carnaval. Na primeira aldeia, de fato, pegou de
surpresa uma turma grande. Cantos e danças, tudo fervia. Depois de ficar um
tempo escutando à porta, abre-a, entra de repente. Em silêncio, fita a
assembléia com olhar fulminate. Num abrir e fechar de olhos, cessam canções e
danças; os espectadores sentados se levantam e todos, dançarinos e
espectadores; por um instante, quedam-se estupefatos. A seguir, precipitam-se
em tumulto, portas e janelas a fora para fugir. Outros escondem-se. Alguns, não
podendo fugir depressa devido ao acúmulo de gente, atiram-se e se
apinham debaixo das mesas. A dona da casa, pouco depois, apresentou-se
sozinha ao padre, pedindo-lhe perdão, lágrimas nos olhos, mãos postas, alegando
para deculpar-se, ser a primeira vez e também a última. O Pe. Champagnat lhe
replicou, com sua firmeza habitual: “E na primeira vez a senhora foi pilhada em
flagrante”.
Encaminhou-se em seguida para outras aldeias. Numa delas encontrou mais uma
dança organizada, que terminou como a primeira. Foi difícil o retorno a
Lavalla: a noite estava muito escura, os caminhos entransitáveis e
cobertos de gelo. Por sorte levara um bastão, com o qual sondava o caminho.
Mesmo assim, caíu várias vezes. Chegou pouco depois da meia-noite. Depois de se
aquecer um pouco, foi se deitar, sem tomar absolutamente nada, pois não se
dispensava de celebrar a missa.
Censuras
Censurava com tanta força, do alto do
púlpito, essas desordens e insistiu tanto junto aos jovens e seus pais, que
conseguiu eliminar completamente tais reuniões noturnas.
Outro vício que lhe deu ainda mais trabalho: a embriaguez. Erradicou da
paróquia à custa de preces, exortações e ameaças dos castigos divinos. As
tabernas, geralmente lotadas à noite, antes de sua chegada a Lavalla,
tornaram-se desertas. Evitava-se até mesmo freqüentá-las durante o dia. Quando
as exortações do alto do púlpito não surtiam efeito, dirigia-se pessoalmente à
casa dos culpados, pedia-lhes com insistência, exortava-os e os ameaçava, até
que prometessem mudar de vida.
Empreendeu igualmente a tarefa de expurgar a paróquia dos livros perniciosos.
Teve êxito. Todos os livros maus foram destruídos e substituídos por livros
bons que versavam sobre religião e piedade. Tomou providência para montar uma
biblioteca com a finalidade de oferecer bons livros a quem quisesse ler.
Encarregou-se pessoalmente da distribuição dos livros aos jovens, para ter
ocasião de aconselhá-los e orientá-los na prática da piedade e da virtude. A
montagem da biblioteca exigiu dele muitos sacrifícios; quando se tratava,
porém, de fazer o bem e de evitar o mal, não olhava dinheiro. Dava tudo o que
tinha, sem contar.(p.46-47).
Visita aos doentes(p.49)
Não se contentava com visitar, uma ou
duas vezes, os doentes para confessá-los; ia vê-los mais vezes, preparava-os
para bem morrer e fazia-os produzir atos condizentes com seu estado.
Sendo extremamente bondoso, falava
sempre de Deus com muita unção. Era, assim, para os doentes, motivo de
consolação vê-lo e ouvi-lo.
Boas palavras
Seu espírito conciliador, caráter
alegre e modos simples, bondosos e afáveis conquistaram-lhe os corações; bons e
maus gostavam dele e aceitavam com prazer, ou pelo menos sem maior dificuldade,
seus avisos, conselhos e mesmo as repreensões.
Congregação de irmãos
Vendo crescer o número de discípulo, o
Pe. Champagnat pensou em traçar-lhes uma forma de vida mais regular e mais de
acordo com a vida comunitária. Não podia ficar sempre na companhia deles e
sentia a necessidade de não deixá-los sozinhos. Resolveu, pois, dar-lhes um
diretor que estivesse à sua frente exigindo a observância do regulamento e
repreendendo aqueles que o infringissem ou cometessem alguma outra falta. Mas,
para facilitar-lhes a obediência e a submissão, decidiu que o diretor seria
escolhido por eles mesmos. Propôs que o elegessem por votação secreta. Depois
de cada um escrever e depositar seu voto, procedeu à apuração na presença deles
e proclamou diretor o mais votado. O mais antigo, isto é, Ir. João Maria, obteve
o maior número de sufrágios e foi confirmado diretor.
Deu-lhes também, após várias experiências, uma vestimenta simples e modesta que
os distiguia dos leigos. Dando uma forma exterior à Congregação, tornava-a
conhecida e favorecia as vocações. A vestimenta consistia numa espécie de
sobrecasaca azul que descia até meia altura das penas, calças pretas, um
pequeno manto e chapéu redondo. A cor azul foi escolhida para lembrar aos
Irmãos que eram filhos de Maria; vestindo seu hábito e sua cor, deveriam sempre
lembrar-se de viver a vida do jeito de Maria, imitando-lhe as virtudes.
O regulamento da pequena comunidade foi então aperfeiçoado com algumas
modificações. As principais práticas da vida religiosa foram introduzidas. Após
levantar às cinco horas, rezava-se em comunidade a oração da manhã, seguida de
meia hora de meditação, da celebração eucarística, das horas menores do Ofício
da Santíssima Virgem e do estudo. Às sete horas, o desjejum após o qual cada um
se aplicava, em silêncio, aos seus afazeres que, para a maioria, era o trabalho
braçal. Ao meio-dia, o almoço seguido da visita ao Santísisimo Sacramento
e do recreio sempre comunitário. As conversas deviam versar sempre sobre
assuntos edificantes ou próprios para dar aos Irmãos os conhecimentos necessários
à sua vocação. A tarde era também dedicada ao trabalho braçal. Pelas seis
horas, a comunidade reunia-se para a reza de vésperas, completas, matinas e
laudes do Ofício da Santíssima Virgem e do terço; depois, uma leitura
espiritual. Após estes exercícios, os Irmãos iam a cozinha para o jantar,
seguido de recreio, como depois do almoço. Logo após rezavam as orações da
noite, liam o assunto de meditação para o dia seguinte e às nove horas iam
deitar.(p.59-60).
Champagnat era zeloso com o seguimento dos irmãos
Passado apenas um ano, o Pe.
Champagnat viu-se obrigado a despedir o professor, devido a seu
comportamento irregular e demasiado mundano, e confiou a escola a um dos
Irmãos. Foi o Ir. João Maria, diretor da casa, que assumiu a escola. Mediante
sábia a prudente firmeza conseguiu manter a ordem e a disciplina estabelecidas
pelo seu predecessor. Como ele estivesse razoavelmente preparado e fosse de
notável zelo e dedicação, o bom andamento da escola e a instrução das crianças
nada sofreram com a mudança. A fama de piedoso e virtuoso que o Ir. João Maria
granjeara na paróquia muito contribuiu para conferir-lhe ascendência sobre as
crianças. Com satisfação os pais viram-no assumir a direção da escolinha. Até
então os habitantes de Lavalla tinha dado pouca atenção aos Irmãos, pois não
estavam a par do seu modo de vida, nem objetivos que se propunha. Quando,
porém, notaram seu zelo e dedicação na instrução das crianças e viram seu
êxito, unanimemente os aplaudiram e apoiaram. O número de alunos vindo de toda a
paróquia cresceu consideravelmente. Os pobres eram aceitos gratuitamente ; os
restantes pagavam contribuição módica.(p.65).
Alma da casa, o Pe. Champagnat, que
apoiava e dirigia os Irmãos e aconselhava os pais a lhes confiar os filhos,
resolveu imprimir desenvolvimento maior à escola. Observando que uma única sala
de aula era insuficiente para tantos alunos, abriu mais uma, o que possibilitou
separar os alunos, classificando-os de acordo com seu aproveitamento. Isso
contribuiu muito para acelerar-lhes o progresso.(p.65)
Recomendava com freqüência aos Irmãos
descrição e prudência na explicação do catecismo, evitando decidir se tais e
tais faltas são pecados mortais ou veniais, por causa do perigo de falsear a
consciência dos alunos, expondo-os a ofenderem a Deus. Em certa ocasião
repreendeu severamente o Irmão que se afastara desta regra: “Contente-se com
lhes inspirar o ódio ao pecado, deixando a Deus e ao confessor o julgamento da
gravidade das faltas”.(p.68-69).