sábado, 20 de julho de 2013

A JUVENTUDE QUER VIVER

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)
Caminhar com a juventude é compromisso que deve ser assumido por todos, como inestimável bem para a sociedade e a Igreja. A caminhada dos jovens, especial momento na programação da Semana Missionária na Arquidiocese de Belo Horizonte, ocorrerá neste sábado, 20 de julho, com concentração a partir das 14 horas, na Praça do Papa, em Belo Horizonte. Às 16 horas, os participantes seguirão pela Avenida Afonso Pena até a Praça da Estação. A presença dos jovens, acompanhados e apoiados por familiares e amigos, particularmente por todos os que se movem pela fé em Jesus Cristo, se constituirá num evento significativo para a sociedade.
Essa manifestação com os jovens, grandes protagonistas desta nova etapa que exige um novo tempo para a sociedade brasileira, será a oportunidade de qualificar o atual, complexo e exigente processo de transformação social com os valores do Evangelho de Jesus Cristo. O tratamento político indispensável ao contexto requer esse aprimoramento para superar superficialidades partidárias e galgar níveis de comprovado sentido de bem comum. Muitas referências e instâncias, outrora com força de colaborar com incidências em processos dessa natureza, estão enfraquecidas. As razões de seu enfraquecimento incluem desde a falta de maior sensibilidade social até práticas perigosas de favorecimentos ou de dominação cartorial, especialmente daquilo que deveria funcionar em benefício de todos.
O caminho para as mudanças encontra-se em Jesus Cristo e no seu Evangelho, garantia incontestável da necessária qualificação para se alcançar o desejo das novas gerações, resumido no tema da caminhada do próximo sábado: “A juventude quer viver”. Para se alcançar esse anseio, demandam-se transformações muito significativas, até radicais, em funcionamentos e procedimentos que configuram a sociedade. A Semana Missionária, o Congresso Mundial de Universidades Católicas e o ápice desses acontecimentos, a Jornada Mundial da Juventude, são preciosas oportunidades para uma verdadeira transformação.
Entre nós já estão muitos jovens procedentes de diversas partes do mundo. Na Jornada Mundial da Juventude o coração destes peregrinos vai bater forte ao redor do Papa Francisco. Essas experiências de fé e comunhão precisam fazer a diferença, remodelando mentes, contextos e dinâmicas da sociedade. O fascínio por uma pessoa, Jesus Cristo, é a razão maior, iluminadora de todas as outras, rumo novo à pauta extensa de demandas pela construção de um mundo mais justo e solidário, em que homens e mulheres sejam construtores da paz.
Já no próximo sábado, durante a caminhada “A juventude quer viver” é importante a presença corajosa de cada um, de todos aqueles que apostam nos jovens e com eles buscam um novo tempo. O gesto de caminhar, com o jeito jovem de ser e de se manifestar, pacificamente, seguindo os passos do Senhor da paz, é pública adesão e comprometimento no enfrentamento de problemas gravíssimos que estão desfigurando a sociedade. Nessa extensa pauta, não se pode fechar os olhos à dependência química, “mancha que invade tudo”, como expressaram os bispos no Documento de Aparecida. Esse é um flagelo que atinge todos, especialmente os jovens.
Nessa busca por mudanças estão inscritos os desafios da educação, saúde, trabalho, moradia e o inegociável anseio, direito e exigência de todos os cidadãos, pela reforma política, particularmente com modos novos de fazer e de ser político. A caminhada dos jovens, com essa importante bandeira de que “a juventude quer viver”, merece apoios e nossa presença. A luz para esse novo tempo protagonizado pelos jovens é, incontestavelmente, o seu encontro com Jesus Cristo Vivo, seu seguimento na Igreja e na sociedade. Nesse sentido, lembro o Bem-Aventurado João Paulo II, o instituidor da Jornada Mundial da Juventude, quando diz que “só o que é construído sobre Deus e sobre o amor é durável”.
A caminhada com os jovens tem força de congregar todos por seu sentido significativo de cidadania. Sendo Jesus Cristo e seu Evangelho a razão maior, será uma caminhada ecumênica. Reunirá aqueles que acreditam na juventude e têm coragem de seguir com ela na busca por mudanças. Venham, vamos todos. Neste sábado e também no domingo, quando às 16h, na Praça da Estação, concluiremos a Semana Missionária e o importante Congresso Mundial de Universidades Católicas, realizado na PUC Minas. Depois, no Rio de Janeiro, solidariamente, renovaremos nosso compromisso de sempre caminhar com os jovens.

MARIA MADALENA: QUAL DELAS?

Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)
Até alguns séculos atrás, os católicos não alimentavam dúvidas sobre quem fosse a santa celebrada no dia 22 de julho. Seguindo a opinião do Papa São Gregório Magno, sob o nome de Maria Madalena, eles identificavam a pecadora pública (sem nome) perdoada por Jesus; Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro; e Maria de Mágdala, um povoado situado na costa ocidental do Mar da Galileia. Ultimamente, prevaleceu o pensamento de Orígenes e da Igreja Ortodoxa, e a Igreja Católica começou a distingui-la em três pessoas diferentes.
Qual delas é celebrada no dia 22 de julho? Será a prostituta, cuja conversão, juntamente com as parábolas do “Bom Samaritano” e do “Filho Pródigo”, é vista como uma obra-prima do Evangelho de Lucas? Na verdade, ainda hoje, em alguns países – e em vários filmes – o termo “madalena” é aplicado às profissionais do sexo. Que ela mereça ser enaltecida e seguida através dos séculos, não resta a menor dúvida, pois, por meio dela, Jesus nos revela a face de Deus: «Os numerosos pecados que ela cometeu estão perdoados, porque demonstrou muito amor» (Lc 7,47). Uma pecadora pública capaz de um amor que apaga todos os pecados! Grande no mal, maior ainda na santidade!
Outra santa que poderia ser lembrada no dia 22 é Maria de Betânia, a irmã de Marta e de Lázaro, uma família onde Jesus gostava de parar em suas visitas a Jerusalém. Se no dia 29 de julho – ou seja, apenas uma semana depois –, a liturgia lembra Santa Marta, por que não festejar também sua irmã, ela que «escolheu a melhor parte, que jamais lhe será tirada»? (Lc 10,42). Talvez a identificação feita (por São Gregório) de Maria de Betânia com a pecadora se deva ao fato de o Evangelho de São João apresentar uma cena bastante semelhante: «Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com perfume e havia enxugado os pés dele com os cabelos» (Jo 11,2).
Se não é a pecadora arrependida nem a irmã de Marta, quem será a verdadeira Maria Madalena? Citada 14 vezes nos Evangelhos, sua primeira aparição é assim narrada por Lucas: «Jesus percorria cidades e povoados pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Iam com ele os Doze e algumas mulheres que haviam sido curadas de doenças físicas e espirituais: Maria, chamada Madalena, libertada de vários espíritos maus; Joana, esposa de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana e outras, que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam» (Lc 8, 1-3).
Onde, porém, Maria Madalena mais resplandece é no Calvário, como testemunha privilegiada da morte e da ressurreição de Jesus. Os Evangelhos atestam que, ao lado de Nossa Senhora, ela esteve sempre presente, juntamente com outra Maria, esposa de Cléofas e mãe de Tiago e de José, e Salomé, mãe dos apóstolos Tiago e João. No domingo de Páscoa, ela foi a primeira a se encontrar com Jesus: «Jesus lhe disse: “Maria!”. Ela virou-se e exclamou: “Rabuni” (isto é, Mestre). Jesus continuou: “Não me segures, porque ainda não voltei para o Pai. Mas vai dizer aos meus irmãos: “Subo ao meu Pai e vosso Pai, ao meu Deus e vosso Deus”. Então Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: “Eu vi o Senhor!”» (Jo 20, 16-18).
Sem se pronunciar sobre a identidade de Maria Madalena, as orações da missa do dia 22 de julho colocam em luz o carisma de cada uma das três mulheres. Na “oração do dia”, quem vem em relevo é a testemunha da ressurreição: «Ó Deus, o vosso Filho confiou a Maria Madalena o primeiro anúncio da alegria pascal. Dai-nos, por suas preces e a seu exemplo, anunciar também que o Cristo vive e contemplá-lo na glória do seu Reino». Por sua vez, o que a “oração sobre as oferendas” traz à memória é a conversão da pecadora: «Recebei, ó Pai, as oferendas que vos apresentamos na festa de santa Maria Madalena, cuja demonstração de amor vosso Filho acolheu com misericordiosa bondade». Por fim, a “oração depois da comunhão” contém uma clara referencia à Maria de Betânia: «Ó Deus, a comunhão nos vossos mistérios infunda em nós aquele amor perseverante que levou Maria Madalena a jamais separar-se do Mestre».
Três ou uma só, Maria Madalena nos revela o que de mais belo e decisivo pode acontecer na vida de uma pessoa: converter-se, escolhendo, a cada momento, a única coisa que importa: passar da morte para a vida através do amor...

quinta-feira, 18 de julho de 2013

JMJ 2013

Lema da Jornada

Ide e fazei discipulos entre todas as nações! (cf. Mt 28, 19)

“A Jornada Mundial da Juventude em Madrid renovou nos jovens o chamado a serem o fermento que faz a massa crescer, levando ao mundo a esperança que nasce da fé. Sede generosos ao dar um testemunho de vida cristã, especialmente em vista da próxima Jornada no Rio de Janeiro”.


Essa convocação foi feita pelo Papa Bento XVI no anúncio do lema da Jornada Mundial da Juventude Rio2013: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19), durante a audiência geral no dia 24 de agosto.


Na ocasião a catequese foi dedicada a JMJ 2011, que havia terminado no dia 21 do mesmo mês. Bento XVI recordou com carinho a participação e a alegria dos cerca de dois milhões de jovens em Madrid, ao que ele chamou de “uma formidável experiência de fraternidade, de encontro com o Senhor, de partilha e de crescimento na fé: uma verdadeira cascata de luz.”


Por isso é tão importante que os jovens do Brasil e do mundo assumam desde agora esse chamado à missão e participem da Jornada como testemunhas vivas do Cristo.


Para o padre Geraldo Dondici Vieira, diretor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, esse é um lema para ser guardado no coração, refletido e meditado. “Esse tema, de fazer discípulos, de chamar outros discípulos para a comunhão e o convívio com o Senhor, é o tema mais querido do Evangelho de Mateus. Esse mandato, essa missão já está anunciada em todo o Evangelho. E, na verdade, só faz discípulo quem já é discípulo, quem convive com o Senhor”, afirmou o sacerdote.


Padre Dondici ressalta que esse testemunho e o próprio anúncio do Cristo, são grandes desafios pra juventude, que vive em um mundo plural, com milhares de informações, seja através das escolas, lazer, internet, especialmente no contato com as redes sociais, como o facebook, twitter: “Com essas mil participações, ele, jovem discípulo, é chamado a plantar no coração de quem ele encontrar, com quem ele se comunicar, o desejo de ser discípulo de Jesus”.


“O que ganha o discípulo de Jesus? Ganha a pertença ao reino, ganha a certeza do amor de Deus, ganha a certeza de ser para os outros sinal de misericórdia e de amor. Ganha o levar e doar a paz do Senhor. São esses frutos e dons que o mundo muito precisa. O perdão, a misericórdia, a paz é que irão diminuir na sociedade, no mundo de hoje, a violência, a guerra, a corrupção, a maldade, tudo aquilo que tira a possibilidade do jovem crescer e colocar toda a sua riqueza e vitalidade a serviço da humanidade”, afirmou.”


No mandato final do texto de Mateus – “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” –, explicou o padre, está um grande sonho antropológico de todos, de que o contato com o Senhor, a amizade com Ele, desperte o que cada um tem de melhor em si mesmo.


“Vivemos em um mundo onde há muitos desperdícios, perdas humanas, por falta de chance. O convívio com o Senhor desperta o que temos de melhor. O anúncio ‘Ide e fazei discípulos entre todas as nações’ é um anúncio para a vida toda. Em nenhum momento podemos fazer um intervalo dele, porque ele supõe que aquele que é amigo do Senhor, pela sua vida, pelo seu estar no mundo, comunique aos outros a luz, a beleza e a alegria de ser discípulo do Senhor. Essa é a missão que a nossa Igreja precisa.

JMJ 2013

Símbolos da JMJ

A Cruz

A cruz da JMJ ficou conhecida por diversos nomes: Cruz do Ano Santo, Cruz do Jubileu, Cruz da JMJ, Cruz Peregrina, e muitos a chamam de Cruz dos Jovens porque ela foi entregue pelo Papa João Paulo II aos jovens para que a levassem por todo o mundo, a todos os lugares e a todo tempo.


A cruz de madeira de 3,8 metros foi construída e colocada como símbolo da fé católica, perto do altar principal na Basílica de São Pedro durante o Ano Santo da Redenção (Semana Santa de 1983 à Semana Santa de 1984). No final daquele ano, depois de fechar a Porta Santa, o Papa João Paulo II deu essa cruz como um símbolo do amor de Cristo pela humanidade. Quem a recebeu, em nome de toda a juventude, foram os jovens do Centro Juvenil Internacional São Lourenço, em Roma. Estas foram as palavras do Papa naquela ocasião: “Meus queridos jovens, na conclusão do Ano Santo, eu confio a vocês o sinal deste Ano Jubilar: a Cruz de Cristo! Carreguem-na pelo mundo como um símbolo do amor de Cristo pela humanidade, e anunciem a todos que somente na morte e ressurreição de Cristo podemos encontrar a salvação e a redenção” (Sua Santidade João Paulo II, Roma, 22 de abril de 1984).


Os jovens acolheram o desejo do Santo Padre. Desde 1984, a cruz da JMJ peregrinou pelo mundo, através da Europa, além da Cortina de Ferro, e para locais das Américas, Ásia, África e Austrália, estando presente em cada celebração internacional da Jornada Mundial da Juventude. Em 1994, a cruz começou um compromisso que, desde então, se tornou uma tradição: sua jornada anual pelas dioceses do país sede de cada JMJ internacional, como um meio de preparação espiritual para o grande evento.

O ÍCONE DE NOSSA SENHORA

Em 2003, o Papa João Paulo II deu aos jovens um segundo símbolo de fé para ser levado pelo mundo, acompanhando a cruz da JMJ: o ícone de Nossa Senhora, “Salus Populi Romani”, uma cópia contemporânea de um antigo e sagrado ícone encontrado na primeira e maior basílica para Maria a Mãe de Deus, no Ocidente, Santa Maria Maior. “Hoje eu confio a vocês... o ícone de Maria. De agora em diante, ele vai acompanhar as Jornadas Mundiais da Juventude, junto com a cruz. Contemplem a sua Mãe! Ele será um sinal da presença materna de Maria próxima aos jovens que são chamados, como o apóstolo João, a acolhê-la em suas vidas” (Roma, 18ª Jornada Mundial da Juventude, 2003).




JMJ 2013


O que é JMJ?

JMJ: Um sonho do coração de Deus


Tudo começou com um encontro promovido pelo Papa João Paulo II em 1984. Foi um encontro de amor, sonhado por Deus e abraçado pelos jovens. Vozes que precisavam ser ouvidas e um coração pronto para acolhê-las.


A Jornada Mundial da Juventude (JMJ), como foi denominada a partir de 1985, continua a mostrar ao mundo o testemunho de uma fé viva, transformadora e a mostrar o rosto de Cristo em cada jovem.


São eles, os jovens, os protagonistas desse grande encontro de fé, esperança e unidade. A JMJ tem como objetivo principal dar a conhecer a todos os jovens do mundo a mensagem de Cristo, mas é verdade também que, através deles, o ‘rosto’ jovem de Cristo se mostra ao mundo.


A Jornada Mundial da Juventude, que se realiza anualmente nas dioceses de todo o mundo, prevê a cada 2 ou 3 anos um encontro internacional dos jovens com o Papa, que dura aproximadamente uma semana. A última edição internacional da JMJ foi realizada em agosto de 2011, na cidade de Madri, na Espanha, e reuniu mais de 190 países.


A XXVIII Jornada Mundial da Juventude será realizada de 23 a 28 de julho de 2013 na cidade do Rio de Janeiro e tem como lema “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28, 19).


As JMJs tem sua origem em grandes encontros com os jovens celebrados pelo Papa João Paulo II em Roma. O Encontro Internacional da Juventude, por ocasião do Ano Santo da Redenção aconteceu em 1984, na Praça São Pedro, no Vaticano. Foi lá que o Papa entregou aos jovens a Cruz que se tornaria um dos principais símbolos da JMJ, conhecida como a Cruz da Jornada.


O ano seguinte, 1985, foi declarado Ano Internacional da Juventude pelas Nações Unidas. Em março houve outro encontro internacional de jovens no Vaticano e no mesmo ano o Papa anunciou a instituição da Jornada Mundial da Juventude.


A primeira JMJ foi diocesana, em Roma, no ano de 1986. Seguiram-se os encontros mundiais: em Buenos Aires (Argentina – 1987) - com a participação de 1 milhão de jovens; em Santiago de Compostela (Espanha – 1989) - 600 mil; em Czestochowa (Polônia – 1991) - 1,5 milhão; em Denver (Estados Unidos – 1993) - 500 mil; em Manila (Filipinas – 1995) – 4 milhões; em Paris (França -1997) – 1 milhão; em Roma (Itália – 2000) – 2 milhões, em Toronto (Canadá – 2002) – 800 mil; em Colônia (Alemanha – 2005) – 1 milhão; em Sidney (Austrália – 2008) – 500 mil; e em Madri (Espanha – 2011) – 2 milhões.


Além do fato de estar em outro país, com seus encantos turísticos, a participação na Jornada requer um corpo preparado para a peregrinação e um coração aberto para as maravilhas que Deus tem reservado para cada um. São catequeses, testemunhos, partilhas, exemplos de amor ao próximo e à Igreja, festivais de música e atividades culturais. Enfim, um encontro de corações que creem, movidos pela mesma esperança de que a fraternidade na diversidade é possível.



Entrevista com membros da Comissão de Pastoral Juvenil Marista (PJM)

Ir. Ifeanyi Mbaegbu, Província da Nigéria

 
14/07/2013: Nigéria
A Pastoral Juvenil Marista conta com uma Comissão Internacional encarregada de indicar para todo o Instituto diretrizes que possam orientar o trabalho dos animadores locais. Entre as metas alcançadas da Comissão está o documento “Evangelizadores entre os jovens”, que foi entregue a todo o Instituto Marista em 2011.
 
A última reunião da Comissão aconteceu no último mês de maio, na Casa Geral. Fizemos algumas perguntas aos membros da comissão sobre o trabalho na comissão e na Pastoral Juvenil Marista. Hoje apresentamos uma entrevista com o Ir Ifeanyi Mbaegbu, da Nigéria, membro da Comissão desde 2007.
 
Quais são as características mais peculiares dos jovens Africanos nos dias de hoje?
 
Os jovens em minha região são muito dinâmicos, cheios de energia, auto-motivados e, ao mesmo tempo, são jovens que se deparam com a crise de culturas estrangeiras e os avanços tecnológicos percebidos na Europa e na América.
 
Como está organizada a Pastoral Juvenil Marista em sua região?
A PJM está em sua fase inicial. Em alguns lugares, o movimento está aos poucos criando raízes, enquanto em alguns outros lugares o processo se mostra ainda lento, porque não há estruturas que sirvam de apoio para a PJM. No entanto, pode-se dizer que existe uma paixão pela PJM em todo o continente africano.
 
Em sua opinião quais são os desafios e dificuldades que a PJM enfrenta na África?
*Falta de conhecimento dos princípios básicos de animação dos jovens por parte de alguns Irmãos e leigos
*Fraco envolvimento de líderes e animadores de jovens leigos
*Conflito entre a estrutura da PJM e outras formas de organização da pastoral juvenil existentes em nossas escolas.
* Um grande número de Irmãos envolvidos com a PJM têm muitas responsabilidades e não dispõem de tempo adequado para acompanhar os grupos da PJM.
*Baixo investimento financeiro na PJM pelas Unidades Administrativas.
* Falta de interesse e apoio de alguns irmãos.
*Ausência de uma abordagem unificadora e de uma linguagem comum entre Irmãos, nas Unidades administrativas.
* Problemas de fronteira entre países, e de barreiras linguísticas em alguns lugares.
* Alguns Irmãos não estão dispostos a ir além da sala de aula e do trabalho no escritório.
 
Você tem algumas propostas a fazer?
* Há necessidade de uma orientação mais prática para a implantação do documento da PJM.
* Há necessidade de maior envolvimento da liderança provincial, dos diretores das escolas e dos superiores de comunidade na promoção da PJM nas Províncias.
 
 FONTE: See more at: http://www.champagnat.org/400.php?a=6&n=2879#sthash.8zspjc1c.dpuf

As manifestações e a dignidade humana

Por padre Almir Magalhães*.

Produzo esta reflexão como uma contribuição a respeito das inúmeras manifestações que aconteceram neste “país continente” e sua relação com a dignidade humana.

Talvez algumas pessoas ao olhar para este título se espantem e até curiosamente se perguntem: o que as manifestações recentes têm a ver com a religião, com a Igreja, com a Teologia, com a espiritualidade cristã?

“Tudo é teologizável”. Esta é uma afirmação de Santo Tomás de Aquino, ou seja, pode-se fazer teologia a partir de qualquer realidade, evidentemente desde que a partir dos fundamentos da fé (da Revelação, da Tradição e do Magistério da Igreja). É partindo desta premissa que produzo esta reflexão, como uma contribuição a respeito das inúmeras manifestações que aconteceram neste “país continente” e tudo indica que vão continuar e sua relação com a dignidade humana.

Quase todas as minhas contribuições neste espaço têm um elemento convergente, que é a relação fé x vida, a Igreja e as questões sociais, o pensamento social da Igreja, a dimensão social do Evangelho. As manifestações populares são perpassadas por este viés. No fundo, o que está em jogo é a dignidade humana, aviltada em cada pedaço deste país e, mesmo que as manifestações não sejam motivadas pelo Evangelho, há um encontro muito feliz porque o que interessa é o ser humano e “o caminho da Igreja é o ser humano”, já dizia o beato João Paulo II em sua Carta Encíclica O redentor do homem (4/3/79, nº 14).

As demandas são inúmeras, difusas e vieram não contra o futebol, mas a partir de um confronto: a agilidade e eficiência do Estado na obtenção de recursos para a construção das obras e de forma contrária na ineficiência do Estado (o Executivo – Municipal, Estadual e Federal – e também no Legislativo em seus três níveis), quando se trata da qualidade da educação, do atendimento à saúde, a insegurança do cidadão que por vezes se sentiu enganado pelo tique-taque enjoado, das conversas fiadas unilaterais de quem representava qualquer um desses poderes.

Muito comum nas redes sociais e nos meios de comunicação a ideia de que o povo brasileiro cansou e explodiu; o cansaço e a enganação foram substituídos pelos gritos não só dos excluídos, dos machucados tradicionalmente, mas de outras representações da sociedade brasileira.

Vou buscar na Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação (22/3/86) da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, uma inspiração que se associa bem a esta reflexão, partindo do Êxodo e as intervenções libertadoras de Javé: “Deus quer ser adorado por homens livres… O acontecimento principal e fundacional do Êxodo tem, portanto, um significado ao mesmo tempo religioso e político” (nº. 44).

Esta afirmação segundo a qual Deus quer ser adorado por homens livres, de um lado questiona as inúmeras expressões de adoração a Deus, dos louvores, da nossa expressão sentimental de tocar no Santíssimo, sem, no entanto, nos inquietar com a história da sociedade, alheios ao que acontece e de outro lado é referencial motivador para nossa ação agora não a nível macro, mas no nível mais micro possível, ou seja, nos bairros onde se situam nossas paróquias, áreas pastorais e contemplando os grandes problemas identificados nas manifestações ver como eles aparecem onde estamos: a situação dos postos de saúde ou hospitais, respectivo atendimento e a disponibilidade de remédios básicos para diabéticos, controle de pressão arterial, controle das diversas taxas; a questão educacional, da qualidade do transporte público, do monitoramento da representatividade dos políticos em quem votamos que são nossos funcionários e, em nome da dignidade humana, da defesa da vida produzirmos as mesmas exigências.

Uma questão fundamental que aparece e disso temos que nos desvencilhar é o individualismo e as paixões partidárias, substituindo por causas comunitárias, pelo bem comum, porque, quanto mais nos relacionamos com níveis mais próximos, estas questões podem ficar mais evidentes.

Neste particular, já que o tema em evidência proposto pela CNBB é uma nova paróquia, que seja uma comunidade de comunidades, nada mais oportuno no momento fazer uma leitura teológica destes acontecimentos: entendermos o recado que Deus nos manda através destas inesperadas manifestações, que estão mostrando as potencialidades da nação, a riqueza política de um povo, que começa a controlar as ações de quem recebe mandato para isto e na docilidade ao Espírito ser uma presença testemunhal.

*Almir Magalhães é sacerdote; é diretor geral e professor da Faculdade Católica de Fortaleza e mestre em Missiologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma.

Artigo publicado no Jonal O Povo em http://www.opovo.com.br/app/opovo/espiritualidade/2013/07/13/noticiasjornalespiritualidade,3091536/as-manifestacoes-e-a-dignidade-humana.shtml.

segunda-feira, 15 de julho de 2013


CHAMPAGNAT - 4a PARTE

Irmão Lourenço
O Ir. Lourenço levava na mochila um pão de tamanho regular, queijo e batatas, sua provisão para semana. Embora fosse robusto, os péssimos caminhos faziam-no suar sob o peso do fardo. O Pe. Champagnat, vendo-o em tal situação, ponderou-lhe:
- Meu Irmão, seu trabalho deve ser muito pesado.
- Desculpe, Padre, não é pesado, para mim é muito agradável.
- Não acho que seja tão agradável assim subir as encostas desses morros cada oito dias, caminhar na neve com um saco pesado nas costas, arriscando-se a resvalar em algum precipício.
- Tenho plena convicção de que Deus conta nossos passos e haverá de retribuir, com peso imenso de glória, os sofrimentos e as canseiras suportadas por seu amor.
- Quer dizer que está satisfeito com andar lá para cima, para ensinar o catecismo e dar aulas, carregando seu pão, como se fosse um mendigo?
- Tão satisfeito, padre, que não trocaria meu trabalho por todas as riquezas do mundo.
- Bom, então você está gostando muito do trabalho, mas será que o merece?
- Ah! não! Estou convencido de que não mereço o privilégio de ensinar o catecismo lá em Bessac: é pura bondade de Deus.
- Tudo o que você diz está certo; mas convenhamos que hoje é um dia horrível.
- Não, padre, considero-o um dos mais belos de minha vida.
Dizendo isto, tinha o rosto sorridente, transfigurado, e suaves lágrimas de felicidade corriam de seus olhos. O Pe. Champagnat, comovido e consolado por verificar tanta virtude, com muito esforço pôde conter as suas.
Vocacionados
Em meados da quaresma de 1822, ao voltar, à noite, da oração e da homilia que fizera na igreja, o Pe. Champagnat deparou-se com um jovem que lhe pedia o favor de ser admitido na comunidade. Não simpatizou com o jeito e as maneiras do jovem. Suspeitou dos motivos que o traziam e perguntou-lhe sem muito interesse a respeito da profissão e procedência. Ao saber que era egresso dos Irmãos das Escolas Cristãs, onde permanecera seis anos, disse-lhe:
- Se você não serve para os Irmãos do Senhor de la Salle, ou se o gênero de vida deles não lhe convém, você é inútil para nós e vou ser bem claro: não posso recebê-lo.
Contudo, sendo já noite, não achou conveniente recusar-lhe hospitalidade: “Pernoitará aqui, concluiu, e amanhã irá embora”. O jovem, que tinha real desejo de ficar, certamente por não saber o que fazer na vida, usou de todos os meios para interessar o Pe. Champagnat em seu favor e conquistar-lhe a confiança. Após a refeição falou demoradamente da sua região e das inúmeras vocações que os Irmãos das Escolas Cristãs ali recrutavam. Percebendo que o assunto agradava ao Pe. Champagnat, acrescentou: “Se eu for admitido, prometo trazer-lhe vários postulantes meus conhecidos”.
No dia seguinte, continuou insistindo para ser aceito. Foi-lhe permitido passar dois ou três dias na casa. A experiência não satisfez plenamente o Pe. Champagnat. Achou muito ambíguo o jeito do moço; chamou-o e mandou-o embora. Depois de novas e inúteis instâncias para sua admissão, o ex-irmão, vendo que nada conseguia, perguntou-lhe:
O senhor me aceitará se lhe trouxer meia dúzia de bons candidatos?
- Sim, mas quando os tiver trazido, respondeu Champagnat.
- Pois bem, passe-me uma autorização para legitimar minha tarefa.
Queremos ver-se livre dele, Champagnat redigiu um documento vago e, entregá-lo, disse-lhe:
-Vá e fique com seus pais ou, o que seria melhor, volte para a comunidade de onde saiu; nossa casa e nosso modo de vida não lhe convém.
Com o documento na mão, o jovem partiu para sua terra, distante umas quinze léguas de Lavalla. Assim que chegou à casa paterna, não perdeu tempo. Em menos de uma semana convenceu oito rapazes a partirem para Lavalla, ou melhor, para Lião, pois tivera a precaução de não lhes dizer que os levaria a Lavalla. Na região, consideravam-no membro da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs. Não citou sequer o nome dos Irmãozinhos de Maria, nem os rapazes nem sempre pais poderiam pensar que se tratasse de um Instituto totalmente desconhecido para eles.
No contrato firmado para determinar as pensões e a época do pagamento estava escrito que os postulantes iriam para o noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs em Lião e não se fazia mínima alusão ao Pe. Champagnat nem aos Irmãozinhos de Maria . Não é de admirar que esse jovem tenha conseguido reunir, com incrível facilidade, tão elevado número de colegas. Além de aparecer claramente neste episódio a mão de Deus, ignorava-se a conduta irregular desse infeliz. Sua família figurava entre as mais distintas da região, pelas posses e pela piedade. Por isso foi-lhe fácil aliciar aqueles postulantes. Vários deles, aliás, já havia decidido ingressar na vida religiosa e tinham até reservado vaga no noviciado de Lião. Poucos dias foram suficientes para aprontar o enxoval e ultimar os preparativos da partida.
Em fins de março de 1822, os piedosos jovens, juntamente com o guia, puseram-se a caminho, na funda convicção de que se dirigiam para o noviciado dos Irmãos das Escolas Cristãs em Lião. Após dois dias chegaram ao cimo do morro defronte a Lavalla. “Estão vendo”, diz o ex-Irmão, apontando para o campanário da paróquia, “é lá que termina nossa viagem”.
- O quê! exclamaram os postulantes; é para lá que vamos? Mas lá não é Lião.
- Não, não é Lião; mas temos aqui um noviciado no qual passarão alguns dias e, em seguida serão levados a Lião.
A chegada do ex-Irmão, com seu grupo, causou grande surpresa ao Pe. Champagnat. Naquele momento estava virando terra na horta. Largou tudo e foi falar com eles. Parece-me ainda vê-lo, comenta um dos jovens do grupo, a medir-nos de alto a baixo, com a estupefação de quem não contava com nossa chegada. Depois de algumas perguntas para certificar-se de nossas disposições e dos motivos que nos traziam, acabou por declarar que não podia receber-nos. Essas palavras nos causaram enorme surpresa e nos fizeram sofrer muito. Percebendo isso, o Pe. Champagnat acrescentou para nos consolar: “Vou rezar e examinar o problema diante de Deus; fiquem até amanhã”.
A maioria desses postulantes tinha impressionado bem a Champagnat. Se fazia dificuldades em recebê-los, era porque não os conhecia e receava que a vocação deles não fosse suficientemente comprovada, não tivesse motivos bastante puros, fosse apenas o resultado das solicitações daquele que os trouxera com o objetivo de ser pessoalmente aceito. Serem numerosos, era outra preocupação: “Os rapazes decidiram-se talvez convencidos pelo guia. Ora, se der na veneta de algum deles de voltar para casa, é provável que os outros desanimem também e todos voltem como vieram, uns por causa dos outros”. Além de tudo, o grupo era numeroso demais em relação à moradia. Faltava e até camas. Foi necessário mandá-los dormir no celeiro, sobre a palha. Enfim, faltavam também recursos: a maioria desses rapazes podia pagar apenas uma pensão insignificante, e a casa que mal se mantinha não estava em condições de fazer sacrifícios em favor deles. Por isso, Champagnat julgou conveniente consultar os principais Irmãos.
No dia seguinte, mandou chamar os postulantes e lhes disse: “Ainda não posso prometer que os receberei. Devo antes consultar os Irmãos. Permito-lhes somente ficarem alguns dias conosco. Mas, como não temos certeza de poder admiti-los todos, quem estiver com vontade de ir embora pode ir. Escreveu uma carta aos Irmãos de Bourg-Argental e outra aos de Saint-Sauveur, mandando os vir ter com ele por ocasião das festas da Páscoa, dentro de dez dias. Quando os Irmãos chegaram, reuniu-os diversas vezes no seu quarto; refletiu com eles sobre os desígnios de Deus para com a Congregação nascente que, naquela ocasião, pareciam manifestar-se, e declarou-lhes que, na sua opinião, os rapazes deviam ser aceitos, uma vez que haviam sido visivelmente trazidos pela Providência. Todos os Irmãos foram do mesmo parecer. Decidiu-se que os oito postulantes seriam admitidos, juntamente com o guia. Seriam, porém, submetidos a provas especiais, para testar a autenticidade da vocação.
Quem não concordou com Champagnat foram as pessoas amigas. Pelo contrário, desaprovaram abertamente a resolução adotada. Pressionaram-no de todas as formas para que afastasse os recém-chegados: “O senhor não pode conservar esse grupo de jovens. Onde conseguirá recursos para alimentá-los? Sua casa é pequena demais para alojá-los. Sabe o que vai acontecer se ficar com eles? Acabarão indo embora depois de acarretar-lhe vultosas despesas. Alimentar e manter todos esses jovens está acima de suas posses. A prudência exige que vá devagar, sem impor levianamente fardo tão pesado à sua comunidade. O senhor precisa, pelo menos, despedir os mais jovens. São muito crianças para saberem se têm vocação”. Champagnat fizera sua opção e nada o podia abalar. Mas, homem prudente, lançou mão de todos os meios sugeridos pelo espírito de Deus para experimentar os postulantes e saber se convinham ou não à congregação. Em vez de pô-los no estudo, empregou-os no cultivo da terra, da manhã à noite. Exigiu deles rigoroso silêncio e ocupação constante. O “capítulo das culpas”, as repreensões, os castigos pelas mínimas transgressões, nada poupado, mas nada conseguiu abalar a decisão dos rapazes.
Champagnat, surpreso e edificado com tanta constância, resolveu impor aos mais jovens uma última provação. Reuniu-os na presença dos Irmãos da casa e disse-lhes: “Meus amigos, visto que desejam absolutamente ficar aqui e tornar-se filhos de Maria, resolvi aceitá-los todos. No entanto, sendo alguns jovens demais para conhecerem a própria vocação, decidiu mandá-los trabalhar de empregados na casa de alguns pequenos proprietários para cuidarem do gado. Se procederem bem, contentarem os patrões e mantiverem a disposição de abraçar a vida religiosa, vou admiti-los definitivamente ao noviciado na próxima festa de Todo os Santos”. E dirigindo-se ao mais jovem:
- Você concorda?
- Pois não! Já que o senhor quer. Mas somente se me der a certeza de que me receberá no tempo em que o senhor marcou.
A essa resposta o Pe. Champagnat emuduceu de admiração; baixou os olhos e, após alguns momentos, disse.
- Muito bem! Aceito-os todos, agora mesmo.
De onde podia vir a persistência desses jovens? Qual a causa de seu apego a um Instituto que lhes opunha tantos obstáculos à admissão? Um deles vai explicar. Ouçamo-lo em sua linguagem singela: “Não tinham razão de desconfiar tanto de nós e de suspeitar das razões que nos moviam. Fossem humanos os motivos, não teríamos ficado um só dia. Quem nos seguraria numa casa onde só víamos pobreza, onde dormíamos num celeiro, onde a cama era só um pouco de capim seco? Onde tínhamos como alimentos alguns legumes e um pouco de pão que se esfarelava todo e onde a bebida era somente água? Numa casa onde, de manhã à noite, éramos ocupados num trabalho penoso, cujo único salário eram algumas repreensões ou castigos, que devíamos aceitar com profundo respeito? Se nos perguntarem, agora, o que poderia agradar-nos numa situação tão contrária à natureza, o que nos apegava tanto a uma Sociedade que nos repelia, responderei: foi a devoção que ela professava à Virgem Maria. No dia seguinte de nossa chegada, o Pe. Champagnat entregou um terço a cada um, falou-nos, várias vezes, de Maria Santíssima naquele tom persuasivo que lhe era natural,e narrou-nos alguns fatos que mostravam sinais da proteção da divina Mãe. As coisas maravilhosas que nosso bom Padre nos contava de Maria calaram tão profundamente na alma de todos nós, que nada no mundo teria conseguido afastar-nos da nossa vocação”.
Finalizaremos este relato, acrescentando que o infeliz guia destes postulantes foi expulso quinze dias depois, por idêntica falta que motivara sua saída da Congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs: atentado contra os bons costumes.
Aqui, naturalmente, cabe a reflexão que pode ser utilíssima para os que duvidam da vocação, pelo fato de ter sido determinada, em sua origem, por motivos humanos ou porque teve o homem como promotor. “Mesmo que a vocação à vida religiosa viesse do demônio, afirma Sto. Tomás, deveria ser abraçada como excelente conselho, embora dado pelo inimigo. Além disso, acrescenta o santo doutor, se o impulso à vocação proviesse de satã, não se deveria concluir daí que não pudesse vir ao mesmo tempo de Deus, que muitas vezes permite que a malícia do inimigo da humanidade resulte em seu prejuízo e em nosso proveito, fazendo-nos, assim, decapitar esse Golias com sua própria espada. Porventura não usou a maldade dos irmãos de José para exalçá-lo ao governo do Egito? E acaso não tirou da traição de Judas e da perfídia dos judeus os meios para realizar nossa Redenção? Assim, o amor à vida religiosa, seja qual for a causa ou o promotor, só pode ter Deus como origem.
Nossos oito postulantes, embora trazidos ao Instituto por um religioso que havia profanado a santidade de seu estado e perdido sua vocação, não eram por isso menos vocacionados. Entre eles estavam bons religiosos; estava um assistente; estava quem trabalhou mais de quinze anos reunindo os documentos que serviam para compor esta biografia do piedoso Fundador.
(p.85-90).
Pensamentos
***
“O Irmão que não reza não sabe praticar a virtude nem fazer o bem entre os alunos; é somente na oração que se aprendem estas coisas.”
***
“A Vida Religiosa é essencialmente vida de oração porque, além de exigir que se reze mais do que os simples fiéis, é para ter contato mais freqüente com Deus que nos tornamos religiosos. É impossível cumprir as obrigações da vida consagrada sem verdadeira e sólida piedade.”
***
“O religioso sem piedade nunca vai amar nem estimar sua vocação, porque nela viverá sem consolação.”
***
“Ah! como a virtude é fácil, como os sacrifícios que ela exige custam pouco, quando se ama a Jesus! O amor a Jesus é, para o religioso que percorre o caminha da virtude, como as velas para as embarcações que singram o oceano. Sem se dar conta, este amor conduz às mais sublimes virtudes.”
***
“O apego ao dinheiro leva os homens do mundo a se entregarem sem trégua aos trabalhos mais árduos e aos mais duros sacrifícios. Seria uma vergonha se o amor a Jesus exercesse menor motivação sobre o religioso.”
***
“Aquele que tem grande amor a Maria terá certamente grande amor a Jesus. Por isso, os santos que tiveram particular devoção a Maria, como S. Bernardo, S. Boaventura, S. Francisco de Assis, Sto. Afonso de Ligório, Sta. Tereza, distinguiram-se por grande amora a Jesus.”
***
“Maria não guarda nada para si. Quando a servimos, quando nos consagramos a ela, só nos recebe para oferecer-nos a Jesus, para nos impregnar de Jesus.”
***
“Foi ao discípulo amado que Cristo confiou sua Mãe, para nos ensinar que concede amor especial à Virgem Santíssima somente às almas privilegiadas, sobre as quais tem planos especiais de misericórdia”.
***
“A pobreza, a mortificação, a humildade e, em geral, todas as virtudes, são como as rosas entre espinhos. As pessoas do mundo somente enxergam e sentem os espinhos e por isso têm medo da virtude. Os religiosos sentem e saboreiam os encantos, as delícias e as consolações da virtude e assim não percebem os espinhos, isto é, as dificuldades inerentes.”
***
“O bom religioso sente mais felicidade e consolo num só exercício de piedade, como a meditação, a assistência à missa, um quarto de hora de visita ao Santíssimo, do que os afortunados do mundo podem ter em todos os prazeres de uma longa vida.”
***
“Por que são os mundanos tão espalhafatosos em seus prazeres e no meio das alegrias profanas? Porque não conseguem abafar inteiramente os remorsos que os perseguem; porque sua felicidade é apenas aparente e seu coração infeliz só encontra amargura nas satisfações sensuais.”
***
“Por sua vocação, todos os Irmãos são apóstolos enviados para ensinarem às crianças os ministérios da religião e lhes anunciarem a boa nova da salvação de Jesus Cristo nos mereceu.”
***
“Há muitos modos de dar o catecismo, isto, é ensinar as verdades da salvação e levar ao bem as crianças e as demais pessoas. Rezar pelas crianças que nos são confiadas, pela conversão dos pecadores e dos infiéis é também fazer boa catequese, assim como é bom catequista aquele que dá sempre o bom exemplo e é, em toda parte, modelo de piedade, regularidade, modéstia e caridade.”
***
“Esses dois modos de dar catecismo, além de servir a todos os Irmãos, em qualquer função que exerçam, e independentemente de seus talentos e capacidade, são as mais eficazes e mais fáceis do que explicar a doutrina cristã às crianças. São mais eficazes porque a graça, única realidade absolutamente necessária à salvação, se consegue mais seguramente pela oração e pela santidade da vida do que por qualquer outro meio; mais fáceis, porque é possível rezar e praticar a virtude em qualquer tempo e lugar.”

(p.94-96)

CONTINUA...

Final da plenária do Conselho Geral

Nomeações e Comissões
 
15/07/2013: Casa Geral
Nos primeiros dias de julho começou a funcionar, em Roma, a Equipe Internacional de Irmãos Hoje, formada pelos Irmãos Hipólito Pérez (América Central); James Pinheiro (Brasil Centro-Norte); Daniel O’Riordan (EUA); Juan Carlos Fuertes (Mediterrânea); Norbert Mwila (África Austral); Albert Nzabonaliba (África Centro-Leste); Saul Placious (Ásia do Sul); Peter Rodney (MAPAC); Jean Marie Batick (Melanésia); Tony León (Austrália). Sua finalidade é de apoiar, com uma reunião anual, o Secretariado Irmãos Hoje, especialmente nas áreas da pastoral vocacional e da formação inicial.
Outras duas comissões internacionais foram nomeadas, para dar resposta a dois mandatos capitulares:
·         a primeira, para elaborar um plano de autonomia econômica das UA, formada pelos Irs. Víctor Preciado (Ecônomo geral), coordenador; Mario Meuti (FMSI); Francisco Baeza (África Centro-Leste); Jude Pieterse (África Austral); Mervyn Perera (Ásia do Sul); Robert Teoh (Ásia do Leste); Tata Oliver (África Ocidental); John Bwanali (MIC, África Austral); Jean-Thomas Randrianantenaina (Madagascar); Celestin Okoye (Nigéria); Sr. Marco Cândido (Brasil Centro-Sul);
·         a segunda, para pôr em marcha e acompanhar o processo de revisão das Constituições, formada pelos Irs. Nicholas Fernando (Ásia do Sul), Diogène Musine (África Centro-Leste), John Hazelman (Nova Zelândia), Patrick McNamara (EUA), Deivis Fischer (Rio Grande do Sul), Juan Ignacio Fuentes (Cruz del Sur) e Antonio Leal (Compostela). Coordenarão a comissão os Irs. Emili Turú, Joseph Mckee e Antonio Leal .
 
Nomeações a serviço da Administração geral:
- Ir. César Rojas (Norandina), Diretor do Secretariado Irmãos hoje, para um segundo triênio;
- Ir. Javier Espinosa (América Central), Diretor do Secretariado de Leigos, para um segundo triênio;
- Codiretores do Secretariado de Leigos: Sr. Tony Clarke (Austrália), para um segundo triênio, e Sr. Josep Buetas (L’Hermitage);
- Ir. Joarês Pinheiro, Diretor adjunto dos programas de formação permanente em língua espanhola e portuguesa;
- FMSI-Genebra: Irmãos Manel Mendoza (L’Hermitage) e Vicente Falchetto (Brasil Centro-Norte), para um segundo triênio; Ir. Evaristus Kasambwe (África Austral), que vai incorporar-se a esse serviço no próximo mês de outubro;
- A partir do mês de janeiro 2014 o Ir. Colin Chalmers (Europa Centro-Oeste) vai iniciar como Arquivista geral. Até então, o Ir. Juan Moral continuará assumindo essa função. 
 

Entrevista com membros da Comissão de Pastoral Juvenil Marista (PJM)

Ir. Ifeanyi Mbaegbu, Província da Nigéria

 
14/07/2013: Nigéria
A Pastoral Juvenil Marista conta com uma Comissão Internacional encarregada de indicar para todo o Instituto diretrizes que possam orientar o trabalho dos animadores locais. Entre as metas alcançadas da Comissão está o documento “Evangelizadores entre os jovens”, que foi entregue a todo o Instituto Marista em 2011.
A última reunião da Comissão aconteceu no último mês de maio, na Casa Geral. Fizemos algumas perguntas aos membros da comissão sobre o trabalho na comissão e na Pastoral Juvenil Marista. Hoje apresentamos uma entrevista com o Ir Ifeanyi Mbaegbu, da Nigéria, membro da Comissão desde 2007.
Quais são as características mais peculiares dos jovens Africanos nos dias de hoje?
Os jovens em minha região são muito dinâmicos, cheios de energia, auto-motivados e, ao mesmo tempo, são jovens que se deparam com a crise de culturas estrangeiras e os avanços tecnológicos percebidos na Europa e na América.
Como está organizada a Pastoral Juvenil Marista em sua região?
A PJM está em sua fase inicial. Em alguns lugares, o movimento está aos poucos criando raízes, enquanto em alguns outros lugares o processo se mostra ainda lento, porque não há estruturas que sirvam de apoio para a PJM. No entanto, pode-se dizer que existe uma paixão pela PJM em todo o continente africano.
Em sua opinião quais são os desafios e dificuldades que a PJM enfrenta na África?
*Falta de conhecimento dos princípios básicos de animação dos jovens por parte de alguns Irmãos e leigos
*Fraco envolvimento de líderes e animadores de jovens leigos
*Conflito entre a estrutura da PJM e outras formas de organização da pastoral juvenil existentes em nossas escolas.
* Um grande número de Irmãos envolvidos com a PJM têm muitas responsabilidades e não dispõem de tempo adequado para acompanhar os grupos da PJM.
*Baixo investimento financeiro na PJM pelas Unidades Administrativas.
* Falta de interesse e apoio de alguns irmãos.
*Ausência de uma abordagem unificadora e de uma linguagem comum entre Irmãos, nas Unidades administrativas.
* Problemas de fronteira entre países, e de barreiras linguísticas em alguns lugares.
* Alguns Irmãos não estão dispostos a ir além da sala de aula e do trabalho no escritório.
Você tem algumas propostas a fazer?
* Há necessidade de uma orientação mais prática para a implantação do documento da PJM.
* Há necessidade de maior envolvimento da liderança provincial, dos diretores das escolas e dos superiores de comunidade na promoção da PJM nas Províncias.
 

quinta-feira, 11 de julho de 2013

MODERADOR EM FÉRIAS.
NOVAS POSTAGENS A PARTIR DE
16 DE JULHO DE 2013.

CHAMPAGNAT - 3a PARTE


Regras como sacerdote: (p.32-34).
Senhor, tudo o que existe no céu e na terra, vos pertenceste. Desejo também tornar-me propriedade vossa pela oblação voluntária, para, em tudo, cumprir vossa santa vontade e trabalhar eficazmente na minha santificação e na das pessoas que me confiastes. Neste intenção prometo-vos fidelidade ao seguinte.
1º) Vou consagrar todos os dias, pelo menos meia hora, à meditação e, quando possível, ao levantar-me antes de sair do quarto.
2º) Jamais deixarei de prever o assunto de meditação e de prepará-lo com muito cuidado.
3º) Nunca celebrarei a santa missa sem ter feito antes um quarto de hora de preparação. Após a missa, dedicarei outro quarto de hora à ação de graças.
4º) Todos os anos lerei, uma vez, as rubricas do missal.
5º) No decorrer do dia, visitarei o Santíssimo Sacramento e a Santíssima Virgem.
6º) Todas as vezes que tiver de sair para visitar um doente ou resolver alguma coisa, farei igualmente uma visita a Jesus sacrametnado e outra, a Maria. Assim também procederei ao voltar, a fim de agradecer a Deus os favores recebidos e pedir-lhes perdão das faltas que, por aventura, tiver cometido.
7º) Não esquecerei de fazer meu exame de consciência todas as noites.
8º) Sempre que no exame eu me reconhecer culpado de maledicência, aplicar-me-ei três chicotadas de disciplina. Assim farei também, quando reconhcer que pronunciei palavras de vanglória.
9º) Estudarei Teologia diariamente, durante uma hora.
10º) Não darei nenhuma instrução sem tê-la preparado.
11º) Continuamente lembrar-me-ei de que tenho Jesus no coração.
12º) Permanecerei na presença de Deus em todas minhas ações e evitarei a dissipação, com o máximo cuidado.
13º) Exercitar-me-ei, de modo particular, na virtude da mansidão; e, para atrair, mais facilmente o próximo a Deus, tratarei a todos com muita bondade.
14º) Dedicarei parte da tarde à visita aos doentes da paróquia, se houver.
15º) Depois da missa, confessarei as pessoas que se apresentarem. O restante da manhã sera reservado ao estudo, se as funções do ministério não exigirem minha presença em outra parte.
16º) Quanto às refeições, à maneira e passar o recreio e praticar os demais exercícios do dia, procurarei seguir, no que depender de mim, o Regulamento do seminário maior.
17º) Lerei esse meu regulamento e essas resoluções uma vez por mês.
18º) Todas as vezes que faltar a algum dos artigos relativos às práticas de piedade, me aplicarei a disciplina, em união aos sofrimentos de Jesus Cristo. Quero que os açoites sejam um ato de amor e de fé, e pedirei à Santíssima Virgem que ela mesma torne esse ato, insignificante em si, agradável à Santissíma Trindade”.
Para complementar esse regulamento, acrescentamos: levantava pontualmente às quatro horas; fazia a meditação e logo se encaminhava para a igreja, onde rezava a missa, exceto se alguma circunstância o obrigava a retardá-la. Ocupava o dia com a oração, o estudo e as funções do sagrado ministério. Saía raras vezes, só para visitar os doentes ou fazer alguma obra de caridade. Passava o tempo de lazer com o pároco ou se dedicava a um trabalho manual. Emfim, ia deitar geralmente entre nove e dez horas da noite.
Obediência
Para o Pe. Champagnat foi grande consolação manter-se assim em contato permanente com o pároco, tomando-o como guia de procedimento, aproveitando-lhe a experiência e formando-se, sob seus olhares e sua direção, nas sublimes funções do santo ministério. Teve sempre por ele profundo respeito e filial afeição. Disso dava provas em todas as ocasiões. Nunca fez nada sem consultá-lo, nem jamais empreendeu alguma boa obra sem lhe pedir o parecer e obter aprovação de seus projetos. Mostrou-se também sempre disposto e sempre pronto a substituí-lo para levar o santo Viático aos doentes dos povoados distantes, ou exercer outras funções difíceis do ministério sagrado. Porém, seu objeto principal era conquistar-lhe a estima e o afeto dos paroquianos. Defendia-o sempre e em toda parte, apoiava-lhe a autoridade; justificava-lhe o comportamento perante os que o censuravam e, mesmo nos casos em que não tinha razão, sabia desculpá-lo, interpretando favoravelmente o motivo da crítica. Embora às vezes tivesse motivos de queixar-se dele, como veremos, nunca deixou de proceder assim, conservando-lhe sempre amizade e dando, diariamente, provas de respeito e submissão pelos cuidados que lhe dispensava, pela dedicação em servi-lo e causar-lhe alegria.(p.34).
Cativante e Amoroso
Convencido de que, para se fazer o bem e levar as pessoas a Deus, é preciso conquistar-lhes a afeição e a estima, quando chegou a Lavalla o Pe. Champagnat tratou de conquistar a confiança de seus paroquianos. Seu caráter alegre, franco, expansivo, sua aparência simples, modesta, risonha, simpática e nobre ao mesmo tempo, contribuíram muito. Ao passar pelas ruas, e quando encontrava alguém, sempre tinha de dizer alguma coisa engraçada, uma palavra de elogio, consolo ou animação. Conversando familiarmente com todos, sabia pôr-se ao alcance de cada um, adaptar-se ao seu gênio, entender seus pontos de vistas e o modo de ver as coisas. Após haver lhe preparado o espírito, termina a rápida conversa com uma palavra de edificação, um bom conselho ou leve reparo, se fosse o caso.
Encontrando-se com crianças, muitas vezes parava para dizer-lhes palavras de animação, fazer-lhes pequena carícia, dar-lhes santinhos e fazer perguntas do catecismo, muito ansioso em relação às pessoas idosas, compreensivo e indulgente para com os jovens, repleto de caridade e compaixão para com os pobres, de bondade e caridade para com todos para levá-los a amar a religião e conquistá-los a Jesus Cristo. Porém, o que o mais contribuiu para atrair-lhe a estima e benevolência dos fieis foi sua conduta edificante, sua virtude, piedade, regularidade e fidelidade a todos os deveres. Estava sempre disponível e sempre se mostrava afável, fosse qual fosse a hora em que vinham solicitar-lhe serviços, ou chamassem à igreja ou para junto aos doentes.
p.35-36.
Um Ótimo padre
Não limitava seus cuidados às crianças que se preparavam para a primeira comunhão, mas pedia, encarecidamente, que também lhe mandasse os menores. Temendo, porém, que alguns pais, principalmente os que moravam mais longe da igreja, não atendessem às suas recomendações, por demasiada ternura para com os filhos ou por exagerado receio de eventuais acidentes, usou outro expediente para atrair ao catecismo essas criaturinhas. Prometeu uma recompensa para quem trouxesse uma criança. O piedoso expediente produziu resultado maravilhoso. Já no dia seguinte, vários jovens voltaram com alegria e sofreguidão à catequese, trazendo, um, o irmãozinho; outro, o primo; um terceiro, o coleguinha ou o vizinho pelo qual se responsabilizara e que deveria levar de volta à mãezinha, sem acidente.
Os prêmios prometidos não tardaram e o modo como foram distribuídos despertou no coração de todos o desejo de merecer igual recompensa pela apresentação de um coleguinha. Com isso, o catecismo teve a freqüência muito aumentada e, em pouco tempo, reuniu todas as crianças da paróquia. O zelo do Pe. Champagnat devia estar satisfeito. Deus haveria de recompensá-lo, o que não tardou. Certo dia, um menino que se preparava para a primeira comunhão veio acompanhado do maninho e apresentou-o ao Pe. Champagnat, para receber um santinho que lhe foi dado imediatamente. Mas, quem era essa criança tímida, a transpirar candura e inocência? Era Gabriel Rivat, futuro Ir. Francisco, seu sucessor imediato no governo geral do Instituto.(p.38-39).
Pregações(p.40).
Os sermões do Pe. Champagnat não produziram menos frutos do que os catecismos. No púlpito expremia-se com veemência. Nele, tudo falava: o gesto, a aparência humilde e piedosa, o tom de voz, a palavra viva, sonora e inflamada, tudo contribuía para comover e convencer os ouvintes. Nunca subia ao púlpito sem ter-se preparado pelo estudo, reflexão e oração. Começou com breves exortações. A primeira consistia em simples reflexões. Entretanto, agradou a todos os ouvintes. Ao saírem da igreja, diziam: “Nunca tivemos aqui um padre que pregasse tão bem!” Essa opinião difundiu-se na paróquia e as famílias procuravam informar-se do dia em que ele devia pregar. O povo acorria então e a igreja ficava sempre cheia.
Habitualmente os sermões versavam sobre as grandes verdades: morte, juízo, inferno, gravidade do pecado, necessidade da salvação e a desgraça da condenação eterna. Pregava essas verdades com tanta veemência quem por várias vezes, arrancou lágriamas do auditório e abalou os pecadores mais empedernidos. Suas palavras, repassadas de clareza, ardor e unção, empolgavam os espíritos e sensibilizavam os corações. Às lágrimas que corriam dos olhos sucederam os remorsos, o arrependimento de ter ofendido a Deus e o desejo sincero de recuperar a graça divina e de, no fundo, servir a Deus com fidelidade. Em pouco tempo operou-se maravilhosa transformação em toda a paróquia. A fé revigorou-se, a piedade refloreceu, os sacramentos voltaram a ser freqüentados e a renovação foi quase geral.
Confissão
Houve numerosíssimas confissões gerais, com frutos incalculáveis que mudaram a fisionomia da paróquia. As conversões, iniciadas nos sermões, completavam-se no confecionário. Inexprimível era a bondade do seu coração para com os penitentes: falava-lhes com tanto carinho tanta caridade e tanta convicção, que muitas vezes eles prorrompiam em choro. Suas palavras tinham o dom particular de incutir horror ao pecado, afastar do vício e despertar o amor e à virtude. Falava: “Ele é de Rozet, por isso as palavras dele são macias e agradáveis como as rosas”. Entrentanto, apesar de repassadas de doçura, suas exortações, nem de longe, bajulavam os pecadores. Pelo contrário, levavam-nos ao arependimento, ao ódio do pecado e à vontade impaciente de se livrar dele e inspiravam o propósito de abandoná-lo de vez. A quase totalidade dos que ele teve a felicidade de converter perseverou na prática da virtude.
Antes de sua vinda a Lavalla, muitas pessoas não se confessavam havia muito tempo. Outras contentavam-se com a confisão pascal, cumprindo raramente os demais deveres religiosos. O Pe. Champagnat teve a consolação de converter a uns e reavivar a fé de outros. Falou-lhes com tanto empenho e unção dos bens infinitos que temos em Jesus Cristo, e dos sacramentos que no-los comunicam, que os confessionários foram assediados e as comunhões mensais quadruplicaram. Como a maior parte dos fiéis se dirigia a ele, aos sábados, domingos e grandes festas, via-se constrangido a passar grande parte da noite no confessionário. Aos domingos e dias santos ia cedinho à igreja. Já encontrava muita gente esperando para confessar-se. Trancava-se no confessionário até as onze, quando saía para cantar a missa solene, sempre seguida das vésperas.(p.40-41).
Uma de suas pregações
“Caríssimos irmãos (dizia num domingo), estamos no tempo dos grandes trabalhos. Os dias são longos e o calor, sufocante. Vocês vão para o trabalho de manhã muito cedo e voltam, muitas vezes, somente à noite. Cansam-se e suam o dia inteiro. Quantos méritos podem juntar para o céu, se quiserem! Como se tornarão agradáveis a Deus! Quantas graças derramará sobre vocês, se souberem santificar as ações e os sofrimentos! E para isso, o que precisam? Oferecê-los de manhã a Deus e unir as canseiras e dores às de nosso Salvador. Antes de iniciar a jornada e, de vez em quando durante o dia, ofereçam o trabalho a Deus. Digam-lhe: Meu Deus, quero fazer e suportar tudo isso para fazer vossa vontade, imitar Jesus Cristo, expiar meus pecados, merecer vossos favores e o céu, e também para que abençoeis meus filhos e tudo o que me pertence.”(p.42)
Pregação nas festas
Um dia, chegando da igreja, após atender as confissões até altas horas da noite, em vez de jantar disse ao Irmão que o aguardava:
- Vou sair.
- Padre, aonde vai a estas horas?
- Visitar um doente.
- Antes precisa jantar.
- Não, não tenho tempo.
Vendo-o sair, o Irmão ofereceu-se para acompanhá-lo. Aceitou. O doente não estava em perigo, mas o Pe. Champagnat pensava em outra coisa. É que ao voltar da igreja, tinha recebido informação de que haveria danças em várias povoações. Era tempo de carnaval. Na primeira aldeia, de fato, pegou de surpresa uma turma grande. Cantos e danças, tudo fervia. Depois de ficar um tempo escutando à porta, abre-a, entra de repente. Em silêncio, fita a assembléia com olhar fulminate. Num abrir e fechar de olhos, cessam canções e danças; os espectadores sentados se levantam e todos, dançarinos e espectadores; por um instante, quedam-se estupefatos. A seguir, precipitam-se em tumulto, portas e janelas a fora para fugir. Outros escondem-se. Alguns, não podendo fugir depressa devido ao acúmulo de gente, atiram-se e se apinham debaixo das mesas. A dona da casa, pouco depois, apresentou-se sozinha ao padre, pedindo-lhe perdão, lágrimas nos olhos, mãos postas, alegando para deculpar-se, ser a primeira vez e também a última. O Pe. Champagnat lhe replicou, com sua firmeza habitual: “E na primeira vez a senhora foi pilhada em flagrante”.
Encaminhou-se em seguida para outras aldeias. Numa delas encontrou mais uma dança organizada, que terminou como a primeira. Foi difícil o retorno a Lavalla: a noite estava muito escura, os caminhos entransitáveis e cobertos de gelo. Por sorte levara um bastão, com o qual sondava o caminho. Mesmo assim, caíu várias vezes. Chegou pouco depois da meia-noite. Depois de se aquecer um pouco, foi se deitar, sem tomar absolutamente nada, pois não se dispensava de celebrar a missa.
Censuras
Censurava com tanta força, do alto do púlpito, essas desordens e insistiu tanto junto aos jovens e seus pais, que conseguiu eliminar completamente tais reuniões noturnas.
Outro vício que lhe deu ainda mais trabalho: a embriaguez. Erradicou da paróquia à custa de preces, exortações e ameaças dos castigos divinos. As tabernas, geralmente lotadas à noite, antes de sua chegada a Lavalla, tornaram-se desertas. Evitava-se até mesmo freqüentá-las durante o dia. Quando as exortações do alto do púlpito não surtiam efeito, dirigia-se pessoalmente à casa dos culpados, pedia-lhes com insistência, exortava-os e os ameaçava, até que prometessem mudar de vida.
Empreendeu igualmente a tarefa de expurgar a paróquia dos livros perniciosos. Teve êxito. Todos os livros maus foram destruídos e substituídos por livros bons que versavam sobre religião e piedade. Tomou providência para montar uma biblioteca com a finalidade de oferecer bons livros a quem quisesse ler. Encarregou-se pessoalmente da distribuição dos livros aos jovens, para ter ocasião de aconselhá-los e orientá-los na prática da piedade e da virtude. A montagem da biblioteca exigiu dele muitos sacrifícios; quando se tratava, porém, de fazer o bem e de evitar o mal, não olhava dinheiro. Dava tudo o que tinha, sem contar.(p.46-47).
Visita aos doentes(p.49)
Não se contentava com visitar, uma ou duas vezes, os doentes para confessá-los; ia vê-los mais vezes, preparava-os para bem morrer e fazia-os produzir atos condizentes com seu estado.
Sendo extremamente bondoso, falava sempre de Deus com muita unção. Era, assim, para os doentes, motivo de consolação vê-lo e ouvi-lo.
Boas palavras
Seu espírito conciliador, caráter alegre e modos simples, bondosos e afáveis conquistaram-lhe os corações; bons e maus gostavam dele e aceitavam com prazer, ou pelo menos sem maior dificuldade, seus avisos, conselhos e mesmo as repreensões.
Congregação de irmãos
Vendo crescer o número de discípulo, o Pe. Champagnat pensou em traçar-lhes uma forma de vida mais regular e mais de acordo com a vida comunitária. Não podia ficar sempre na companhia deles e sentia a necessidade de não deixá-los sozinhos. Resolveu, pois, dar-lhes um diretor que estivesse à sua frente exigindo a observância do regulamento e repreendendo aqueles que o infringissem ou cometessem alguma outra falta. Mas, para facilitar-lhes a obediência e a submissão, decidiu que o diretor seria escolhido por eles mesmos. Propôs que o elegessem por votação secreta. Depois de cada um escrever e depositar seu voto, procedeu à apuração na presença deles e proclamou diretor o mais votado. O mais antigo, isto é, Ir. João Maria, obteve o maior número de sufrágios e foi confirmado diretor.
Deu-lhes também, após várias experiências, uma vestimenta simples e modesta que os distiguia dos leigos. Dando uma forma exterior à Congregação, tornava-a conhecida e favorecia as vocações. A vestimenta consistia numa espécie de sobrecasaca azul que descia até meia altura das penas, calças pretas, um pequeno manto e chapéu redondo. A cor azul foi escolhida para lembrar aos Irmãos que eram filhos de Maria; vestindo seu hábito e sua cor, deveriam sempre lembrar-se de viver a vida do jeito de Maria, imitando-lhe as virtudes.
O regulamento da pequena comunidade foi então aperfeiçoado com algumas modificações. As principais práticas da vida religiosa foram introduzidas. Após levantar às cinco horas, rezava-se em comunidade a oração da manhã, seguida de meia hora de meditação, da celebração eucarística, das horas menores do Ofício da Santíssima Virgem e do estudo. Às sete horas, o desjejum após o qual cada um se aplicava, em silêncio, aos seus afazeres que, para a maioria, era o trabalho braçal. Ao meio-dia, o almoço seguido da visita ao Santísisimo Sacramento e do recreio sempre comunitário. As conversas deviam versar sempre sobre assuntos edificantes ou próprios para dar aos Irmãos os conhecimentos necessários à sua vocação. A tarde era também dedicada ao trabalho braçal. Pelas seis horas, a comunidade reunia-se para a reza de vésperas, completas, matinas e laudes do Ofício da Santíssima Virgem e do terço; depois, uma leitura espiritual. Após estes exercícios, os Irmãos iam a cozinha para o jantar, seguido de recreio, como depois do almoço. Logo após rezavam as orações da noite, liam o assunto de meditação para o dia seguinte e às nove horas iam deitar.(p.59-60).

Champagnat era zeloso com o seguimento dos irmãos
Passado apenas um ano, o Pe. Champagnat viu-se obrigado a despedir o professor, devido a seu comportamento irregular e demasiado mundano, e confiou a escola a um dos Irmãos. Foi o Ir. João Maria, diretor da casa, que assumiu a escola. Mediante sábia a prudente firmeza conseguiu manter a ordem e a disciplina estabelecidas pelo seu predecessor. Como ele estivesse razoavelmente preparado e fosse de notável zelo e dedicação, o bom andamento da escola e a instrução das crianças nada sofreram com a mudança. A fama de piedoso e virtuoso que o Ir. João Maria granjeara na paróquia muito contribuiu para conferir-lhe ascendência sobre as crianças. Com satisfação os pais viram-no assumir a direção da escolinha. Até então os habitantes de Lavalla tinha dado pouca atenção aos Irmãos, pois não estavam a par do seu modo de vida, nem objetivos que se propunha. Quando, porém, notaram seu zelo e dedicação na instrução das crianças e viram seu êxito, unanimemente os aplaudiram e apoiaram. O número de alunos vindo de toda a paróquia cresceu consideravelmente. Os pobres eram aceitos gratuitamente ; os restantes pagavam contribuição módica.(p.65).
Alma da casa, o Pe. Champagnat, que apoiava e dirigia os Irmãos e aconselhava os pais a lhes confiar os filhos, resolveu imprimir desenvolvimento maior à escola. Observando que uma única sala de aula era insuficiente para tantos alunos, abriu mais uma, o que possibilitou separar os alunos, classificando-os de acordo com seu aproveitamento. Isso contribuiu muito para acelerar-lhes o progresso.(p.65)
Recomendava com freqüência aos Irmãos descrição e prudência na explicação do catecismo, evitando decidir se tais e tais faltas são pecados mortais ou veniais, por causa do perigo de falsear a consciência dos alunos, expondo-os a ofenderem a Deus. Em certa ocasião repreendeu severamente o Irmão que se afastara desta regra: “Contente-se com lhes inspirar o ódio ao pecado, deixando a Deus e ao confessor o julgamento da gravidade das faltas”.(p.68-69).

CONTINUA...